Pular para o conteúdo

Como anonimizar dados clínicos antes de usar IA

Como anonimizar dados de paciente antes de usar IA, levar à supervisão ou apresentar um caso: o que diz a LGPD, técnicas, exemplo e teste final.

Anonimização de resumo clínico fictício, incluindo detalhes que poderiam identificar a pessoa.
Sumário8 seções

Supervisão, grupo de estudos, aula, congresso, artigo, pergunta a uma ferramenta de IA: muitas situações pedem falar de um caso sem expor a pessoa. A anonimização bem feita protege o sigilo, que é dever da psicóloga pelo art. 9º do Código de Ética Profissional do Psicólogo, e mantém o relato fora do alcance da LGPD. A malfeita dá uma falsa sensação de segurança.

Este guia mostra o que a lei considera anonimizado, as técnicas que funcionam, um exemplo passo a passo e o teste final antes de compartilhar. O contexto de uso com IA está em ChatGPT para psicólogos.

O que a LGPD considera anonimizado

A Lei 13.709/2018 (LGPD) define três conceitos que ajudam a decidir:

ConceitoDefinição na leiO que significa na prática
Dado anonimizado (art. 5º, III)Dado de titular que não possa ser identificado, considerando os meios técnicos razoáveis e disponíveisO relato não permite chegar à pessoa, nem com pesquisa razoável
Anonimização (art. 5º, XI)Uso de meios técnicos razoáveis pelos quais o dado perde a possibilidade de associação, direta ou indireta, a um indivíduoO processo, e não só o resultado, precisa cortar o vínculo
Pseudonimização (art. 13, § 4º)O dado só pode ser associado à pessoa com uma informação adicional guardada separadamente pelo controladorTrocar o nome por código ou iniciais. Protege, mas não é anonimização

O art. 12 fecha a questão: dados anonimizados não são dados pessoais para a LGPD, salvo quando a anonimização puder ser revertida com esforços razoáveis. Para dado de saúde, que é dado sensível (art. 5º, II), essa diferença pesa.

Identificadores diretos e indiretos

Diretos: remover sempreIndiretos: generalizar ou alterar
Nome, apelido, iniciaisIdade exata
CPF, RG, telefone, e-mail, número de prontuárioProfissão específica ou rara
Endereço, nome da empresa, da escola ou da igrejaCidade pequena, bairro, comunidade
Nomes de familiares, colegas e parceirosComposição familiar incomum (gêmeos, muitos irmãos, adoção)
Fotos, áudio, vídeo, mensagens reproduzidasEventos públicos ou noticiados
Datas exatas de nascimento, internação, perdasDoenças raras, marcas físicas, deficiências específicas
Perfis de redes sociaisCargos públicos ou posições de destaque, próprios ou de familiares

O perigo está na coluna da direita. Cada item sozinho parece inofensivo. Três deles juntos, numa cidade pequena, costumam bastar.

As cinco técnicas

TécnicaComo aplicarExemplo
RemoverApague todo identificador direto“Mariana” → sem nome; “Hospital São José” → sem nome
GeneralizarTroque o específico por uma categoria“34 anos” → “entre 30 e 40 anos”; “cirurgiã cardíaca” → “profissional de saúde”
AlterarMude detalhes que não afetam o raciocínio clínicoNúmero de filhos, ordem dos irmãos, cidade de origem
ReduzirMantenha só o necessário para a perguntaPara discutir manejo de crise de pânico, a profissão do ex-cônjuge não importa
TestarLeia como alguém que conhece a pessoa“Minha colega de trabalho reconheceria?”

Alterar exige cuidado: mude só o que não interfere na leitura clínica. Se o fato de a pessoa ser gêmea é central para o caso, generalize em volta dele, e não o apague.

Exemplo passo a passo

O caso é fictício. A pergunta que a psicóloga quer levar à supervisão: como manejar crises de pânico que surgiram depois de um luto.

ModeloAnonimização passo a passo — exemplo fictício

Relato original (identificável)
Mariana, 34 anos, cirurgiã cardíaca do Hospital São José, em Pouso Alegre, mãe de gêmeos de 3 anos, está se separando do marido, que é vereador na cidade. Tem crises de pânico desde o acidente de carro em que a mãe morreu, na noite de réveillon de 2025.

Passo 1 — Remover
Nome, hospital, cidade, cargo do marido e data exata saem.

Passo 2 — Generalizar
34 anos vira “entre 30 e 40 anos”. Cirurgiã cardíaca vira “profissional de saúde”. Gêmeos de 3 anos viram “filhos pequenos”.

Passo 3 — Alterar
Acidente de carro no réveillon vira “morte súbita da mãe”. O tipo de perda importa para a pergunta; as circunstâncias noticiáveis, não.

Passo 4 — Reduzir
A separação fica só se interferir no manejo. Neste caso, fica como “em processo de separação”.

Relato final
Mulher entre 30 e 40 anos, profissional de saúde, com filhos pequenos, em processo de separação, com crises de pânico iniciadas após a morte súbita da mãe, há menos de um ano.

Passo 5 — Testar
Um colega do hospital reconheceria? Não. A família reconheceria? Talvez pelo conjunto; por isso o relato só vai para a supervisão, e não para uma aula aberta.

Quanto anonimizar depende de para onde o relato vai

DestinoNível necessárioCuidados adicionais
Supervisão individualAltoO supervisor também tem dever de sigilo, mas anonimizar continua sendo boa prática. Veja supervisão clínica
Grupo de estudos ou intervisãoMuito altoQuanto mais pessoas, maior a chance de alguém reconhecer o caso
Aula, palestra ou congressoMáximoConsidere pedir consentimento, sobretudo em relatos detalhados
Artigo ou publicaçãoMáximoConsentimento livre e esclarecido e avaliação dos riscos da divulgação (Código de Ética, art. 16)
Ferramenta de IA de uso geralMáximo, e ainda assim evitarO guia do CFP pede para evitar; se inevitável, contrato de confidencialidade, consentimento registrado e treinamento desativado
ProntuárioNão se anonimizaO prontuário identifica o paciente por exigência da Resolução CFP nº 01/2009; a proteção vem do sigilo e da segurança

Checklist antes de compartilhar

  • Nenhum identificador direto, inclusive iniciais e número de prontuário.
  • Idade em faixa, profissão em categoria ampla.
  • Sem cidade pequena, bairro, empresa, escola ou igreja.
  • Sem eventos públicos ou noticiáveis reconhecíveis.
  • Sem cargos ou posições de destaque, da pessoa ou da família.
  • Só as informações necessárias para a pergunta.
  • Nenhuma fala literal marcante que a pessoa reconheceria como sua.
  • Teste feito: nem um colega nem um familiar reconheceriam.

Quando anonimizar não basta

Ferramentas de IA de uso geral. O guia Inteligência Artificial na Psicologia do CFP pede para evitar inserir dados de pacientes. Se for absolutamente necessário: anonimização rigorosa, solução com contrato de confidencialidade e bases privadas, consentimento do atendido registrado e treinamento com seus dados desativado. Para o registro clínico, o caminho é outro: uma plataforma feita para saúde, com consentimento e segurança. Veja transcrição de sessão com IA.

Casos muito singulares. Algumas histórias são reconhecíveis por qualquer detalhe que sobre. Nesses casos, a saída é não usar o caso, ou construir um caso composto, sem correspondência com uma pessoa real, e dizer que é composto.

Falas literais. Uma frase marcante pode ser reconhecida pela própria pessoa, mesmo sem nenhum outro dado. Parafraseie.

Onde o DocsPSI ajuda

A forma mais segura de não precisar anonimizar é não tirar o conteúdo clínico do lugar protegido. No DocsPSI, a sessão é gravada com consentimento, confirmado na plataforma antes de cada gravação, a transcrição e o prontuário completo em 7 seções clínicas ficam na plataforma, com criptografia AES-256 e isolamento entre profissionais, e o conteúdo clínico não é usado para treinar modelos de IA. A supervisão clínica por IA também acontece ali dentro, sem copiar e colar trechos em chats de uso geral.

Perguntas frequentes

Tirar o nome do paciente basta para anonimizar?

Não. Combinações de detalhes indiretos, como idade, profissão, cidade e um evento marcante, podem identificar a pessoa. Trocar o nome por iniciais ou código é pseudonimização, que protege, mas não é anonimização para a LGPD.

Qual a diferença entre anonimizar e pseudonimizar?

Na anonimização, o vínculo com a pessoa é cortado de forma que não possa ser refeito com esforço razoável. Na pseudonimização, o vínculo continua existindo por meio de uma informação guardada à parte, como uma lista que liga o código ao nome. Pela LGPD, dado pseudonimizado continua sendo dado pessoal.

Posso usar caso anonimizado no ChatGPT?

O guia de IA do CFP pede para evitar inserir dados de pacientes em ferramentas de uso geral. Se for inevitável, anonimize com rigor, use solução com contrato de confidencialidade, registre o consentimento do paciente e desative o treinamento com seus dados.

Preciso de consentimento para apresentar um caso em congresso?

Para relatos detalhados, é o caminho mais seguro, somado à anonimização rigorosa. Em produção de conhecimento, o art. 16 do Código de Ética pede avaliação dos riscos da divulgação e consentimento livre e esclarecido dos envolvidos.

Posso anonimizar o prontuário?

Não. O prontuário precisa identificar o paciente, por exigência da Resolução CFP nº 01/2009. A proteção do prontuário vem do sigilo, do controle de acesso e da segurança do meio em que ele é guardado.

E se o paciente se reconhecer num relato anonimizado?

É sinal de que a anonimização não foi suficiente para aquele destino. Por isso o teste final inclui a pergunta “a própria pessoa ou a família reconheceriam?”, e falas literais marcantes devem ser parafraseadas.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

Procurando outro tema?

Busque pelo título ou pelo assunto entre todos os guias do blog.