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IA para psicólogos: o que o CFP permite e como usar com segurança

IA para psicólogos: o que o CFP permite e veda, como gravar e transcrever com consentimento, usar IA no prontuário e escolher uma ferramenta segura.

Psicóloga revisando um rascunho produzido com apoio de inteligência artificial.
Sumário10 seções

A pergunta sobre IA para psicólogos mudou. Já não é “posso usar?”, e sim “como uso sem expor o paciente e sem assinar algo que não conferi?”. O CFP respondeu boa parte dela em um guia de orientação, e a resposta cabe numa regra: a IA pode apoiar o trabalho, mas a decisão técnica, o sigilo e a assinatura continuam sendo da psicóloga.

Este guia organiza o que o Conselho já disse em decisões práticas: o que pode, o que não pode, como gravar e transcrever do jeito certo, como a IA entra no prontuário e nos documentos, e o que perguntar antes de contratar uma ferramenta.

O que o CFP já publicou sobre inteligência artificial

O Conselho criou um grupo de trabalho interno sobre IA e Psicologia. Segundo o próprio guia, esse grupo produziu em 2025:

  • uma nota preliminar do CFP sobre Inteligência Artificial e Psicologia;
  • a Nota de Posicionamento em Defesa da Psicologia e do SUS diante da IA em Saúde Mental;
  • uma campanha nas redes sociais sobre cuidados éticos e técnicos no uso de IA.

Depois vieram dois guias: o Inteligência Artificial na Psicologia, para profissionais, com orientações por área de atuação, perguntas e respostas e um checklist; e o Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental, para a população.

Não existe, até aqui, uma resolução do CFP só sobre IA. O guia informa que o Conselho acompanha o Projeto de Lei nº 2338/2023, que trata da regulamentação da IA no Brasil. Enquanto isso, o uso de IA segue as regras que já valem para tudo o que a psicóloga faz: o Código de Ética Profissional do Psicólogo, a Resolução CFP nº 01/2009 (registro documental), a Resolução CFP nº 06/2019 (documentos psicológicos), a Resolução CFP nº 09/2024 (serviços mediados por tecnologias digitais) e a Lei 13.709/2018 (LGPD).

O que pode e o que não pode, por tipo de uso

A tabela resume a posição do guia do CFP. A coluna da direita traz a condição que torna o uso aceitável.

Uso da IAPosição do CFPCondição
Agenda, lembretes e outras tarefas administrativas sem conteúdo clínicoPode, sem restriçõesNenhuma além do cuidado normal com dados
Apoio à sistematização de prontuários e à organização de dados clínicosPodeCuidado com armazenamento e sigilo
Gravar e transcrever sessõesPodeConsentimento informado do paciente e plataforma com condições de privacidade e armazenamento conhecidas
Apoio na redação de laudos e relatóriosPode, como apoioRevisão integral, autoria assumida, transparência de que houve ferramenta de apoio
Laudos, pareceres ou diagnósticos produzidos pela IANão sem supervisãoO resultado é sempre responsabilidade da psicóloga
Documentos para o sistema de justiçaSó com supervisão qualificadaNada de classificação automática de risco sem análise da psicóloga
Chatbot, avatar ou robô conduzindo psicoterapia sozinhoNãoRisco para o paciente
Colar dados de pacientes em IA de uso geralEvitarSe for inevitável: anonimizar, contrato de confidencialidade, consentimento registrado e treinamento desativado
Aplicação de testes com apoio de IASob supervisãoConhecer a ferramenta e sua política de dados; validade dos testes pelo SATEPSI

Dois pontos do guia costumam passar despercebidos. O primeiro: a psicóloga deve preservar sua independência técnica diante de pressões institucionais para usar tecnologia de forma inadequada. Subordinação administrativa não é subordinação técnica. O segundo: o uso de IA deve ter registro crítico. Não basta usar bem; é preciso conseguir mostrar como usou.

Gravação e transcrição de sessões

É o uso que mais cresce nos consultórios e o que mais pede cuidado. O guia descreve, entre os exemplos de má prática, a profissional que transcreve sessões com uma ferramenta que guarda o áudio na nuvem sem informar o paciente, sem contrato de confidencialidade e sem garantia de que os dados não serão usados para treinar modelos. As consequências apontadas vão da violação do direito à informação e à privacidade até infração ética e à LGPD.

Para fazer do jeito certo:

  1. Consentimento antes de gravar. O paciente precisa entender o que será gravado, para quê, onde fica e por quanto tempo. O registro do consentimento é seu. Os detalhes estão em gravação de sessão de terapia.
  2. Plataforma que você conhece. Onde o áudio fica guardado? Quem tem acesso? O conteúdo é usado para treinar modelos? Se você não sabe responder, a plataforma não serve.
  3. Leitura crítica do resultado. Reconhecimento de fala erra nomes, regionalismos e termos técnicos. Nada entra no prontuário sem passar pelos seus olhos.
  4. Transcrição não é evolução. O Manual Orientativo do CFP (2025) é direto: transcrição literal não é registro de evolução. O prontuário pede uma síntese técnica. Veja transcrição de sessão e evolução psicológica.

Na teleconsulta valem as mesmas regras, somadas às da Resolução CFP nº 09/2024. O cadastro no e-Psi, exigido pelas normas anteriores, foi extinto por essa resolução.

IA no prontuário e nos documentos

O guia admite a IA como apoio na sistematização de prontuários e na redação de documentos. As condições são três: revisão integral, autoria assumida, com transparência de que houve ferramenta de apoio, e sigilo dos dados.

Na prática, isso muda o seu papel no registro. Em vez de reconstruir a sessão de memória no fim do dia, você lê, confere e decide. Para que isso funcione, o texto gerado precisa:

  • seguir a estrutura mínima do prontuário psicológico da Resolução CFP nº 01/2009: identificação, avaliação de demanda e definição de objetivos, registro da evolução, encaminhamento ou encerramento;
  • separar o que foi observado e dito do que é hipótese clínica;
  • respeitar a estrutura de cada modalidade de documento psicológico da Resolução CFP nº 06/2019;
  • deixar claro que o registro só vale depois da sua assinatura.

Riscos que o CFP destaca

O guia lista os riscos éticos que justificam cada cuidado acima:

RiscoO que aconteceCuidado na prática
AlucinaçãoA IA inventa respostas que soam confiáveisConferir cada afirmação com o que aconteceu na sessão. Mais em alucinação de IA no prontuário
Validação excessivaO “ciclo de validação”: a IA concorda com o usuário mesmo quando isso o prejudicaNão usar IA para validar leitura clínica; discutir com supervisão humana
OpacidadeDecisões difíceis de auditar, muitas vezes protegidas como segredo empresarialPreferir ferramentas que mostrem de onde veio cada informação do texto
Vieses algorítmicosTratamento desigual por raça, gênero, classe ou regiãoLer o texto gerado procurando rótulos e generalizações
Pouca representatividadeModelos que não refletem a diversidade brasileiraAtenção redobrada com regionalismos, contextos culturais e populações específicas
Substituição do julgamento clínicoA IA não tem discernimento ético nem responde ao Código de ÉticaA decisão técnica é sempre sua. Mais em a IA vai substituir psicólogos?
ConfidencialidadeDado de saúde é dado sensívelCriptografia, controle de acesso e contrato que proíba o uso dos dados para treinamento

Na avaliação de risco, o cuidado é maior. O guia veda inferências automáticas que resultem em decisões sobre direitos, especialmente classificações de risco sem a análise da psicóloga. Os limites estão em IA e avaliação de risco.

Quando o paciente usa chatbot como terapeuta

Cada vez mais pacientes contam que “conversaram com a IA” sobre o que sentem. O guia orienta:

  • acolher sem julgamento e convidar o paciente a trazer o que a IA respondeu para a sessão;
  • explicar os limites e os riscos: sigilo frágil, possível uso comercial dos dados, respostas enviesadas e ausência de manejo de crise;
  • desaconselhar ferramentas perigosas ou que deem falsa sensação de tratamento.

Um chatbot pode servir de lembrete de exercícios entre as sessões, mas não substitui a psicoterapia. Em crise, o caminho são os serviços de urgência, como o SAMU (192) e o CVV (188), e a rede de cuidado. Mais em chatbots de saúde mental e seus pacientes.

Política de uso de IA do consultório

O guia pede consentimento, transparência e registro crítico do uso. Um jeito simples de cumprir os três é escrever, uma vez, a sua política de uso de IA e deixá-la à mão para o paciente e para qualquer fiscalização. O exemplo abaixo é fictício; adapte às ferramentas que você usa de fato.

ModeloPolítica de uso de inteligência artificial do consultório — exemplo fictício

Consultório de Psicologia — Nome Sobrenome, CRP 00/00000
Atualizada em: 01/09/2026

1. Para que uso IA
Uso inteligência artificial para: agenda e lembretes de sessão; transcrição de sessões gravadas; apoio na organização do prontuário; e apoio na redação de documentos, sempre a partir do que eu mesma registrei e analisei. Não uso IA para diagnosticar, para conduzir atendimento nem para decidir condutas. Interpretações, hipóteses e conclusões são elaboradas por mim, como orienta o Manual Orientativo do CFP (2025).

2. Que ferramenta uso e onde os dados ficam
Plataforma de prontuário eletrônico própria para psicologia, com criptografia e acesso restrito à minha conta. O conteúdo clínico não é usado para treinar modelos de IA. Não coloco dados de pacientes em chatbots de uso geral, nem para "pedir uma opinião" sobre um caso.

3. Consentimento
Todo paciente é informado, no contrato, sobre o uso de IA no consultório. A gravação e a transcrição só acontecem com consentimento específico. Quem não quiser que as sessões sejam gravadas é atendido da mesma forma, e o registro é feito por mim, sem gravação.

4. Gravação
Só gravo com consentimento prévio, registrado na plataforma antes de cada gravação. O paciente pode recusar ou interromper a gravação a qualquer momento, sem prejuízo do atendimento. Com crianças, adolescentes e pessoas sob curatela, o consentimento é dos responsáveis, com o assentimento da pessoa atendida.

5. Revisão e autoria
Leio integralmente todo registro e todo documento antes de assinar. Corrijo o que não corresponde ao que aconteceu na sessão ou ao meu raciocínio clínico. A responsabilidade técnica pelo conteúdo é minha, e nenhum documento sai do consultório sem a minha revisão.

6. Supervisão e estudo de caso
Quando levo um caso à supervisão, uso material desidentificado. Não compartilho gravações com terceiros.

7. Guarda e exclusão
Prontuários e documentos são guardados pelo prazo mínimo de cinco anos. As gravações têm o mesmo cuidado de sigilo, ficam armazenadas pelo período previsto na plataforma e depois são excluídas, permanecendo no prontuário o registro técnico.

8. Direitos do paciente e incidentes
O paciente pode pedir acesso às informações registradas, correção de dados e esclarecimentos sobre o tratamento dos seus dados, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados. Se houver incidente de segurança que possa afetar pacientes, eles serão comunicados, e a autoridade nacional será notificada nos prazos previstos.

9. Revisão desta política
Revejo esta política uma vez por ano, quando mudar de ferramenta ou quando o CFP publicar nova orientação.

Checklist de uso ético da IA

Baseado no anexo do guia do CFP. Se alguma resposta for “não”, resolva antes de continuar usando a ferramenta.

  • Sei que a IA simula inteligência, mas não tem consciência nem discernimento ético.
  • A ferramenta preserva sigilo, consentimento informado e não discriminação.
  • Sei onde os dados ficam guardados e se são usados para treinar modelos.
  • Informo o paciente de forma clara e obtenho consentimento livre e esclarecido.
  • Leio integralmente tudo o que a IA produz antes de registrar ou assinar.
  • Assumo a responsabilidade por qualquer documento que use informação de sistemas informatizados.
  • Não uso IA para conduzir psicoterapia de forma autônoma.
  • Acompanho os efeitos do uso e estou pronta para descontinuar a ferramenta se surgirem problemas.

Como escolher uma ferramenta de IA para o consultório

Leve estas perguntas para a demonstração ou para o período de experiência. Resposta vaga já é uma resposta.

PerguntaResposta aceitável
Como o consentimento do paciente é registrado?Antes de gravar, com data e hora, sem possibilidade de alteração depois
O conteúdo clínico é usado para treinar modelos?Não, e isso está escrito nos termos ou na política de privacidade
Os dados são criptografados?Sim, no envio e no armazenamento
Outra conta consegue ver meus dados?Não: há isolamento entre profissionais
O texto gerado segue a estrutura do CFP?Sim, com as partes da Resolução CFP nº 01/2009 e separação entre observação e hipótese
O que acontece se eu cancelar?Prazo claro de guarda e exclusão, e orientação para salvar seus documentos antes
Quem assina o registro?Você, depois de revisar

Para comparar sistemas, veja qual o melhor sistema para psicólogos e DocsPSI x alternativas. Para o uso de chatbots genéricos no trabalho, veja ChatGPT para psicólogos.

Onde o DocsPSI entra: IA clínica desenhada em torno do guia do CFP

A maior parte das ferramentas de IA foi feita para qualquer pessoa. O DocsPSI foi feito para a psicóloga, e partiu das condições que o guia do CFP coloca para o uso de IA na clínica.

O que o guia do CFP pedeComo o DocsPSI atende
Consentimento do paciente antes de gravarAntes de cada gravação, você confirma na plataforma o termo de consentimento, e esse aceite fica registrado de forma imutável, com data, hora e identificação do dispositivo; obter o consentimento do paciente continua sendo sua responsabilidade.
Síntese técnica, e não transcriçãoEm menos de 5 minutos, o prontuário inteligente em 7 seções, com o observado separado da hipótese e avaliação de risco em toda sessão
Revisão integral e autoria assumidaVocê revisa, ajusta se quiser e assina; nada vale como registro oficial antes da sua assinatura
Plataforma com privacidade conhecidaOs dados ficam protegidos com criptografia AES-256 em repouso e criptografia em trânsito, isolados por profissional, e o conteúdo clínico não é usado para treinar modelos de IA.
IA como apoio, não como substitutaA supervisão por IA e a Linha do Tempo sugerem; o DocsPSI não diagnostica nem decide conduta

O que torna a IA do DocsPSI diferente de um assistente genérico é o contexto. Ela consulta o dossiê clínico completo do paciente, com prontuários, documentos, a Linha do Tempo Terapêutica e as discussões com a supervisão, e considera a abordagem teórica e a especialidade que você informou nas configurações. Com isso, entrega o prontuário de cada sessão, redige laudos, relatórios e os demais documentos da Resolução CFP nº 06/2019 a partir do dossiê, sugere o plano e as próximas condutas e discute o caso a fundo, 24 horas por dia. A biblioteca de recursos completa o fluxo com roteiros de entrevista, contratos com assinatura eletrônica por link e ferramentas terapêuticas por abordagem.

Como qualquer reconhecimento de fala, a transcrição pode ter falhas, e é por isso que a revisão existe. Manter suas anotações de sessão continua sendo boa prática. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.

Perguntas frequentes

O CFP permite o uso de inteligência artificial por psicólogos?

Sim, com limites. O guia do CFP libera a IA para tarefas administrativas e a admite como apoio a prontuários e documentos, com revisão integral, autoria assumida e sigilo. Não admite chatbots conduzindo psicoterapia de forma autônoma nem laudos e diagnósticos produzidos por IA sem supervisão profissional.

Posso gravar a sessão para a IA transcrever?

Pode, com consentimento informado do paciente, registrado antes da gravação, e em uma plataforma cujas condições de privacidade e armazenamento você conheça. O paciente pode recusar sem prejuízo do atendimento.

Posso usar o ChatGPT para escrever laudos?

O guia admite IA como apoio na redação de laudos e relatórios, com revisão integral, autoria assumida e transparência de que houve ferramenta de apoio. Mas pede para não inserir prontuários, nomes ou itens identificáveis em ferramentas de uso geral. A responsabilidade pelo laudo é sempre da psicóloga.

Existe resolução do CFP específica sobre IA?

Não até agora. O CFP publicou notas de posicionamento e guias de orientação, e acompanha o Projeto de Lei nº 2338/2023. O uso de IA segue o Código de Ética, as Resoluções CFP nº 01/2009, 06/2019 e 09/2024 e a LGPD.

Preciso contar ao paciente que uso IA?

Sim. O guia pede que a psicóloga informe de forma clara e acessível o uso da IA e o papel dela, e que obtenha consentimento livre e esclarecido. Uma política de uso de IA por escrito facilita essa conversa.

A IA pode fazer avaliação de risco?

Pode organizar informações, mas não decidir. O guia veda classificações automáticas de risco sem a análise da psicóloga. Qualquer avaliação de risco registrada no prontuário precisa ser conferida e assumida por você.

Referências: Conselho Federal de Psicologia. Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável · Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental · Código de Ética Profissional do Psicólogo · Resolução CFP nº 01/2009, alterada pela Resolução CFP nº 05/2010 · Resolução CFP nº 06/2019 · Resolução CFP nº 09/2024 · Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) · Brasil. Lei 13.709/2018 (LGPD) · Senado Federal. Projeto de Lei nº 2338/2023.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

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