Sumário7 seções
Prontuários com IA costumam trazer um espaço fixo para avaliação de risco. Isso é bom: garante que o tema não seja esquecido na correria. O cuidado está em outro lugar. Um texto bem escrito sobre risco pode passar a impressão de que a avaliação foi feita, quando o que existe é só a organização do que apareceu na conversa.
Este guia mostra o que a IA consegue e não consegue fazer com risco clínico, os erros mais comuns, o que diz o CFP e como revisar e registrar. O protocolo clínico de avaliação está em avaliação de risco de suicídio.
O que a IA consegue e o que não consegue
| A IA consegue | A IA não consegue |
|---|---|
| Destacar trechos da sessão com conteúdo associado a risco | Saber se o tema foi de fato explorado com o paciente |
| Lembrar que a avaliação de risco precisa ser revisada | Avaliar intenção, planejamento, acesso a meios e fatores de proteção |
| Organizar o que foi dito sobre rede de apoio e fatores de proteção | Considerar o não verbal, o tom e a história da relação terapêutica |
| Mostrar menções ao longo das sessões, lado a lado | Decidir conduta, acionar a rede ou decidir por quebra de sigilo |
O que diz o CFP
O guia Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável é claro em três pontos que tocam o tema:
- Classificação de risco automatizada não cabe. Ao tratar de psicologia jurídica, o guia afirma que não cabe usar IA para produzir inferências que resultem em decisões automatizadas que afetem direitos, especialmente classificações de risco sem mediação técnica qualificada e análise contextual feita pela psicóloga.
- O diagnóstico não é delegado. A profissional não deve delegar à tecnologia a função de diagnóstico, avaliação ou intervenção sem supervisão e controle humano.
- A IA não maneja crise. Entre os riscos da “terapia por IA”, o guia aponta que não há manejo de crise nem responsabilização por danos.
A responsabilidade pelo que fica registrado, e pelo que se faz a partir disso, é sempre da psicóloga. Veja o resumo completo do guia do CFP sobre IA.
Os erros mais comuns da IA com risco
| Erro | Exemplo | O que fazer |
|---|---|---|
| Falso negativo | O paciente diz “queria dormir e não acordar mais” e o texto não menciona risco | Leia a transcrição procurando formas indiretas de falar de morte e desesperança |
| Falso positivo | “Morri de vergonha na reunião” vira menção a morte | Corrija; metáfora não é conteúdo de risco |
| Negativa inventada | O texto registra “nega ideação” quando o tema nem foi perguntado | Apague. Só registre como negado o que foi perguntado e respondido |
| Gravidade distorcida | Um relato antigo, já trabalhado, aparece como se fosse atual | Situe no tempo: quando aconteceu e o que mudou |
| Viés | Expressões regionais ou culturais lidas como sinal de risco, ou o contrário | Leia com o repertório da pessoa e do lugar de onde ela fala |
| Omissão de proteção | Rede de apoio e planos para o futuro ditos na sessão não aparecem | Registre os fatores de proteção que você ouviu e observou |
A negativa inventada é a mais perigosa, porque cria no documento uma avaliação que não aconteceu. Mais em alucinação de IA no prontuário.
Roteiro de revisão da seção de risco
Antes de assinar o registro, responda:
- O tema risco foi abordado nesta sessão? Se não foi, o registro deve dizer que não foi avaliado, e não que foi negado.
- O que está escrito corresponde ao que o paciente disse, com as palavras certas e no tempo certo?
- Há algo que você percebeu e o texto não registra? Tom, hesitação, mudança em relação às últimas sessões.
- Os fatores de proteção estão registrados? Rede de apoio, vínculos, projetos, adesão ao tratamento.
- A conduta combinada está escrita? Plano de segurança, contato com a rede, encaminhamento, frequência das sessões.
Se, ao revisar, você perceber sinais que não foram explorados, aborde o tema na próxima oportunidade, ou antes, se houver preocupação. O que decide o momento é o seu julgamento, não o texto.
Como registrar a avaliação que você fez
O registro deve mostrar o que foi perguntado, o que foi respondido, o que você observou e o que foi feito. O exemplo é fictício e resumido.
Data: 22/10/2025 — Sessão 9 — atendimento individual presencial, 60 minutos. Paciente: Wagner (nome fictício), 46 anos, operador de máquinas, em acompanhamento desde agosto por ansiedade e insônia.
Contexto: paciente relata piora do humor depois da perda do emprego, há três semanas, numa demissão coletiva. Diz que "às vezes queria dormir e não acordar". É a primeira vez que traz esse tipo de pensamento.
Avaliação realizada, com perguntas diretas:
- pensamentos de morte: passivos, nos últimos dez dias, sobretudo à noite, quando pensa nas contas; duram alguns minutos e "passam quando a irmã chega";
- pensamentos de tirar a própria vida: nega; nega intenção e planejamento;
- tentativas anteriores: nega; nega autolesão;
- acesso a meios: não há armas em casa; os medicamentos para pressão ficam com a irmã, que os organiza;
- álcool: passou a beber duas a três latas de cerveja por noite desde a demissão, antes só nos fins de semana;
- fatores de risco presentes: homem de meia-idade, perda recente de emprego e de renda, aumento do álcool, sono fragmentado.
Fatores de proteção: mora com a irmã, com quem tem bom vínculo; refere os sobrinhos como motivo para seguir; mantém contato com dois amigos do trabalho; adesão regular às sessões, sem faltas; relatou os pensamentos por iniciativa própria.
Avaliação da psicóloga: risco moderado, pela presença de ideação passiva recente, combinada a vários fatores de risco, sem intenção, sem plano e com proteção consistente. A classificação é decisão clínica, construída na conversa, e será revista a cada sessão.
Conduta: elaborado plano de segurança com o paciente, com sinais de alerta (beber sozinho à noite, ficar acordado pensando nas contas), estratégias pessoais (sair para caminhar, ligar para um amigo) e contatos (irmã, CVV 188, SAMU 192). Com o consentimento dele, a irmã foi informada do plano. Combinada redução do álcool à noite. Encaminhado ao serviço social do sindicato, para orientação sobre o seguro-desemprego, uma das preocupações que alimenta os pensamentos. Combinada sessão extra na próxima semana. Paciente de acordo.
Reavaliação: na próxima sessão e em todas as seguintes, enquanto o quadro persistir.
Repare que o registro diz o que foi feito. Se a pergunta direta não tivesse acontecido, a frase correta seria “risco não avaliado nesta sessão”, e não “nega ideação”. O plano de segurança em detalhe está em plano de segurança.
Sigilo, rede e decisões que não se terceirizam
Quando a avaliação indica risco, entram decisões que não se delegam a uma ferramenta: acionar familiares ou a rede de cuidado, encaminhar, e, no limite, decidir por quebra de sigilo. O art. 10 do Código de Ética Profissional do Psicólogo admite a quebra de sigilo em situações de conflito com os princípios fundamentais, com decisão baseada na busca pelo menor prejuízo, e o parágrafo único pede que a psicóloga preste só as informações estritamente necessárias. Veja quebra de sigilo em risco de suicídio.
A IA pode lembrar o tema. A leitura do caso, a conversa com o paciente e a decisão continuam com você.
Como o DocsPSI trata o risco no prontuário
No DocsPSI, o prontuário completo em 7 seções clínicas inclui a avaliação de risco, organizada a partir do que foi dito na sessão e separando dado observado de hipótese. Assim o tema aparece em todo registro, sem depender da memória no fim do dia. Como todo o prontuário, você revisa, ajusta se quiser e assina; na seção de risco, o roteiro acima vale sempre.
A Linha do Tempo Terapêutica ajuda a ver as menções ao longo das sessões, e a supervisão clínica por IA sugere pontos para a próxima sessão. Nenhum dos dois decide conduta: o DocsPSI não faz diagnóstico nem avaliação clínica no seu lugar.
Perguntas frequentes
A IA consegue identificar risco de suicídio?
Ela pode sinalizar e organizar menções a temas de risco que apareceram na sessão. Não avalia intenção, planejamento, acesso a meios e fatores de proteção, nem considera o não verbal e a história da relação. A avaliação é da psicóloga.
Posso confiar na seção de avaliação de risco gerada pela IA?
Use-a como ponto de revisão obrigatória. Confirme o que corresponde à sessão, corrija o que está errado e apague qualquer negativa sobre algo que não foi perguntado.
O CFP permite IA para classificar risco?
O guia de IA do CFP diz que não cabe usar IA para classificações de risco sem mediação técnica qualificada e análise contextual feita pela psicóloga, e que a profissional não deve delegar avaliação ou diagnóstico à tecnologia sem supervisão e controle humano.
Se o tema não foi abordado, o que escrevo?
Que o risco não foi avaliado nesta sessão, e o motivo, se houver. Registrar “nega ideação” sem ter perguntado cria uma avaliação que não aconteceu.
A IA pode decidir quando quebrar o sigilo?
Não. A decisão de quebra de sigilo é da psicóloga, com base no art. 10 do Código de Ética: busca do menor prejuízo e informação restrita ao estritamente necessário.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável · Código de Ética Profissional do Psicólogo, arts. 9º e 10 · Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025).
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