Sumário9 seções
Poucas situações exigem tanto da psicóloga quanto a suspeita de risco de suicídio. Ter um roteiro claro não substitui o julgamento clínico, mas evita omissões em um momento de alta tensão. Este guia é de apoio técnico; siga também os protocolos do seu serviço e busque supervisão.
Como perguntar
Pergunte de forma direta, calma e sem julgamento, do geral para o específico:
- "Você tem sentido que a vida não vale a pena?"
- "Tem pensado em morrer ou em se machucar?"
- "Pensou em como faria?" (plano)
- "Você tem acesso a esses meios?" (meios)
- "Pretende fazer isso? Quando?" (intenção e iminência)
- "Já tentou antes?" (tentativas prévias)
- "O que tem impedido você de fazer isso?" (fatores de proteção)
Fatores de risco e de proteção
| Fatores de risco | Fatores de proteção |
|---|---|
| Tentativa prévia, um dos preditores mais fortes | Vínculos familiares e sociais |
| Plano, meios acessíveis, intenção | Responsabilidade com filhos ou outros |
| Transtornos mentais, uso de álcool e drogas | Vínculo terapêutico |
| Desesperança, isolamento | Crenças e valores que desencorajam o suicídio |
| Perdas recentes, crises financeiras ou relacionais | Acesso a cuidados de saúde |
| Histórico familiar de suicídio | Habilidades de enfrentamento |
| Violência, abuso, discriminação | Projetos e razões para viver |
Níveis de risco e condutas
| Nível | Características | Condutas |
|---|---|---|
| Baixo | Ideação passiva, sem plano ou intenção, fatores de proteção presentes | Plano de segurança, monitoramento em todas as sessões |
| Moderado | Ideação ativa, algum plano, sem intenção imediata | Plano de segurança, aumento da frequência, envolvimento da rede com consentimento, encaminhamento psiquiátrico |
| Alto / iminente | Plano, meios, intenção, tentativa recente | Não deixar sozinho, acionar rede e urgência (SAMU 192), avaliação médica imediata |
Essa classificação orienta — não substitui — o raciocínio clínico.
Plano de segurança
O plano de segurança é construído com o paciente e registrado por escrito: sinais de alerta, estratégias pessoais, pessoas e lugares que ajudam, contatos de profissionais e serviços, e como reduzir o acesso a meios. Modelo em plano de segurança (Stanley-Brown).
Sigilo e rede de apoio
O Código de Ética (art. 10) permite a quebra de sigilo em conflito com os princípios fundamentais, pela busca do menor prejuízo, informando apenas o estritamente necessário. Sempre que possível, envolva a rede com o consentimento do paciente. Veja risco de suicídio e quebra de sigilo.
A Lei 13.819/2019, que instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, torna de notificação compulsória os casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada: pelos estabelecimentos de saúde públicos e privados às autoridades sanitárias, e pelos de ensino ao conselho tutelar (art. 6º). A lei define violência autoprovocada como suicídio consumado, tentativa de suicídio e automutilação, com ou sem ideação (art. 6º, § 1º); a ideação isolada não entra nessa definição. Com criança ou adolescente, o conselho tutelar também recebe a notificação (§ 2º), e a notificação tem caráter sigiloso (§ 3º). Siga o fluxo do seu serviço e, no consultório, oriente-se com o seu CRP.
Adolescentes
Com menores de idade, os responsáveis precisam ser envolvidos em situações de risco, comunicando o essencial para a proteção (art. 13). Veja autolesão em adolescentes.
Como registrar no prontuário
26/10/2025 — Sessão 9 · 60 minutos · presencial. Paciente: Eduardo (nome fictício), 38 anos, técnico em eletrônica, separado, pai de uma filha de 8 anos, em acompanhamento desde agosto por humor deprimido.
Contexto: relata pensamentos de morte há duas semanas, depois de perder o emprego numa demissão coletiva. Desde então, dorme pouco, passou a beber sozinho à noite e deixou de buscar a filha na escola nas quartas-feiras, combinado com a ex-companheira.
Avaliação de risco, com perguntas diretas:
- ideação: ativa, com o pensamento de "acabar com tudo", quase todas as noites, por períodos de até uma hora;
- plano: não estruturado; diz que "já pensou em como seria", sem método definido nem data;
- intenção: diz que não pretende agir "por causa da filha", mas que "tem medo de uma noite ruim";
- meios: nega acesso a armas; tem medicamentos para pressão em casa, em pequena quantidade;
- história: nega tentativas prévias e autolesão; o pai morreu por suicídio quando Eduardo tinha 20 anos, dado que ele trouxe só hoje;
- fatores que aumentam o risco: perda recente de emprego, álcool à noite, isolamento, sono ruim, história familiar de suicídio;
- fatores de proteção: a filha, a irmã, com quem fala todos os dias, e a adesão à terapia.
Avaliação da psicóloga: risco moderado a elevado, pela ideação ativa com pensamento sobre método, pelo álcool e pela história familiar, na ausência de plano estruturado e com fatores de proteção consistentes.
Conduta:
- construído plano de segurança com o paciente, com sinais de alerta, estratégias, pessoas e serviços; cópia entregue;
- com o consentimento dele, contato telefônico com a irmã às 18h, na presença do paciente, informando a necessidade de apoio próximo e combinando que ela guardará os medicamentos;
- acordo de não beber durante as próximas semanas;
- encaminhamento para avaliação psiquiátrica em caráter prioritário, com a consulta marcada para 28/10.
Próximos passos: sessões duas vezes por semana; próxima em 28/10; reavaliação de risco em todas as sessões. Caso levado à supervisão em 27/10.
Um registro assim documenta o raciocínio e as providências. O que não pode faltar:
| Item | Por quê |
|---|---|
| O que foi perguntado e o que foi respondido | Mostra que a avaliação aconteceu; se não houve pergunta, registre “risco não avaliado nesta sessão”, e não “nega ideação” |
| Fatores de risco e de proteção identificados | Sustentam o nível atribuído |
| Nível de risco e o raciocínio | Deixa visível o julgamento clínico |
| Condutas e horários de cada contato | Rede acionada, encaminhamentos, serviços |
| O que foi combinado com o paciente | Plano de segurança, próxima sessão, reavaliação |
Se houver quebra de sigilo, registre também as alternativas consideradas e a informação que foi compartilhada, e só ela. Veja quebra de sigilo no risco de suicídio.
IA não avalia risco
Ferramentas de IA podem organizar o que foi dito sobre risco, mas não avaliam. O guia de IA do CFP diz que não cabe usar IA para classificações de risco sem a análise contextual da psicóloga. Os limites e os erros típicos, como a negativa inventada, estão em IA e avaliação de risco.
Avaliação de risco no DocsPSI: o tema presente em todo registro, a decisão sempre sua
Na avaliação de risco, o registro precisa ser preciso: o que foi perguntado, o que foi respondido, os fatores de risco e de proteção, o raciocínio que levou ao nível de risco e as condutas, com horários. Escrito de memória, depois de um dia cheio, é justamente esse registro que fica vago, e é ele que protege o paciente e você.
No DocsPSI, a sessão, gravada com consentimento ou importada depois em áudio, vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções, e a seção de avaliação de risco organiza o que foi dito na sessão sobre risco a si, a terceiros e de suicídio, com os fatores de proteção, para que o tema apareça em todo registro. A IA organiza; não avalia. Você confere o que foi perguntado e respondido, ajusta e assina, e a classificação do risco é decisão sua. A Linha do Tempo Terapêutica mostra como o risco evoluiu entre as sessões, e a supervisão por IA, disponível 24 horas, ajuda a pensar a conduta num caso difícil, como apoio que não substitui a supervisão humana. Na biblioteca de recursos, há roteiros de resposta inicial a crise e de avaliação e gestão de segurança diante de risco de suicídio.
Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.
Perguntas frequentes
Perguntar sobre suicídio aumenta o risco?
Não. Uma revisão sistemática (Dazzi et al., 2014) não encontrou aumento de ideação suicida por perguntar sobre o tema, e alguns estudos observaram redução. Perguntar de forma direta e acolhedora é como se identifica o risco e se abre espaço para o cuidado.
O que é plano de segurança?
É um documento construído com o paciente com sinais de alerta, estratégias de enfrentamento, pessoas e serviços de apoio e formas de reduzir o acesso a meios.
A psicóloga pode quebrar o sigilo em risco de suicídio?
O Código de Ética (art. 10) permite a quebra de sigilo em situações de conflito com os princípios fundamentais, pela busca do menor prejuízo, restrita ao estritamente necessário.
Ideação suicida é de notificação compulsória?
A Lei 13.819/2019 define violência autoprovocada como suicídio consumado, tentativa de suicídio e automutilação. A ideação isolada não está na definição. Siga o fluxo do seu serviço.
Quais serviços indicar?
Em risco iminente, SAMU 192 ou pronto-socorro. Para apoio emocional, CVV 188. Para acompanhamento, CAPS e serviços de saúde mental da rede.
A IA pode avaliar o risco de suicídio?
Não. O guia de IA do CFP diz que não cabe usar IA para classificar risco sem a análise contextual da psicóloga. A IA pode organizar o que foi dito sobre risco na sessão; a avaliação, a classificação e a conduta são suas. Veja IA e avaliação de risco.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo, arts. 9º, 10 e 13 · Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável · Brasil. Lei 13.819/2019 · Stanley, B.; Brown, G. K. Safety Planning Intervention: a brief intervention to mitigate suicide risk. Cognitive and Behavioral Practice, 2012 · Dazzi, T. et al. Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Psychological Medicine, 2014.
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