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“Eu conversei com a IA e ela disse que eu tenho TDAH.” “Conto para o chat coisas que não conto para ninguém.” Frases assim já fazem parte do consultório. Ignorar não ajuda, e condenar costuma afastar. Há um caminho no meio: tratar o uso do chatbot como material clínico, com informação clara sobre os riscos.
Este guia reúne o que o CFP orienta, um roteiro para a conversa na sessão, uma folha para entregar ao paciente e um modelo de registro. O panorama sobre IA na prática profissional está em IA para psicólogos.
O que o CFP orienta
O Conselho publicou dois materiais que se completam:
- o guia Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental, escrito para a população;
- o guia Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável, para profissionais, com um capítulo sobre o paciente que quer usar IA.
Para a psicóloga, a orientação tem três partes:
| Postura | O que significa na sessão |
|---|---|
| Acolher a demanda | Perguntar sobre o uso sem julgar e convidar o paciente a trazer o que a IA respondeu |
| Desenvolver consciência crítica | Conversar sobre eficácia, privacidade, experiência e limites da ferramenta |
| Desaconselhar usos perigosos | Deixar claro o que não fazer, especialmente em crise ou quando a ferramenta dá falsa sensação de tratamento |
O guia para profissionais resume a mensagem ao paciente em uma frase: acolha sem julgamento, explique limites e riscos e convide a trazer os conteúdos gerados pela IA para a discussão clínica.
Por que os chatbots preocupam
O guia para a população é direto sobre os riscos. Em linguagem de consultório:
| Risco | O que acontece | Como explicar ao paciente |
|---|---|---|
| Validação excessiva | O chatbot tende a concordar com o usuário para mantê-lo engajado | “Ele concorda com você mesmo quando isso não ajuda.” |
| Erros com segurança | Respostas inventadas, inclusive “diagnósticos” | “Ele pode errar com muita convicção.” |
| Privacidade | Conversas podem ser armazenadas, usadas para treinar a IA ou compartilhadas | “O que você escreve pode não ficar só entre vocês.” |
| Apego | Relação unilateral com um sistema sempre disponível, que pode substituir vínculos reais | “Ele parece amigo, mas não é uma relação.” |
| Viés | Respostas pouco adaptadas à cultura e à diversidade brasileiras | “Ele pode não entender o seu contexto.” |
| Adiamento da ajuda | A sensação de alívio posterga a busca por cuidado qualificado | “Pode parecer resolvido, mas o problema continua.” |
O guia também é enfático sobre quem não deve usar chatbot como apoio: pessoas em crise, com pensamentos suicidas, com quadros graves ou complexos, ou lidando com traumas profundos. Nesses casos, o risco de dano supera qualquer benefício.
Como abordar na sessão
Um roteiro em cinco passos, para adaptar ao seu estilo e à sua abordagem:
- Pergunte com curiosidade. “Como tem sido conversar com a IA? Em que momentos você recorre a ela?”
- Entenda a função. Companhia, desabafo, busca de explicação, evitar o julgamento de alguém?
- Explore o efeito. “Depois dessas conversas, como você fica?” Alívio, dependência, mais ansiedade?
- Traga o conteúdo para a sessão. “Quer me mostrar o que ela respondeu? Podemos pensar juntos.”
- Combine usos e limites. Se fizer sentido, um uso restrito, como lembrar uma técnica treinada, e uma regra clara para os momentos de crise.
A função que o chatbot cumpre costuma ser o dado clínico mais rico. A paciente que conversa com a IA toda noite, sozinha, está contando algo sobre solidão e rede de apoio antes de estar contando algo sobre tecnologia.
Sinais de que é hora de parar
O guia para a população lista sinais para desconfiar da ferramenta e parar de usar. Vale repassar com o paciente:
- o paciente se sente mais ansioso, confuso ou invalidado depois das conversas;
- o chatbot dá conselhos diretivos sobre remédios, relacionamentos ou outras decisões importantes;
- as respostas são repetitivas, genéricas ou sem relação com o que foi dito;
- o aplicativo pede permissões sem sentido, como contatos, arquivos ou localização;
- o aplicativo pressiona para assinar a versão paga explorando a vulnerabilidade emocional (“para continuar se sentindo melhor, assine agora”).
Folha para entregar ao paciente
O guia para a população traz um checklist de sete perguntas para quem pensa em usar um chatbot de saúde mental. A folha abaixo é uma adaptação para entregar na sessão.
Estas perguntas vêm do guia do Conselho Federal de Psicologia para a população. Se a maioria das respostas for “não” ou “não sei”, repense o uso.
- O aplicativo foi feito para saúde mental ou é de uso geral?
- Sei quem é a empresa responsável e como entrar em contato?
- A política de privacidade diz, de forma compreensível, o que fazem com o que eu escrevo?
- O aplicativo foi pensado para a cultura e a língua do Brasil?
- Ele promete curas ou resultados milagrosos? (Se sim, desconfie.)
- Ele mostra o que fazer em crise, com contato de ajuda humana?
- Consigo apagar minha conta e todas as minhas conversas de vez?
Importante: o chatbot não substitui o seu acompanhamento psicológico. Se quiser, traga para a sessão o que ele respondeu.
Em crise, procure ajuda humana: CVV, ligue 188. SAMU, ligue 192. Ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
Em crise, o chatbot não é a resposta
É a mensagem mais importante do guia para a população. O chatbot não maneja crise e não responde pelos danos que causa. Com pacientes em acompanhamento, isso deve estar no plano de segurança: quem chamar, para onde ir e quais serviços usar, como o CVV (188) e o SAMU (192). Veja plano de segurança e os limites da IA diante do risco em IA e avaliação de risco.
Como registrar no prontuário
O uso de chatbot é informação clínica e merece registro, como qualquer outro dado relevante da sessão. O exemplo é fictício.
Data: 12/11/2025 — Sessão 14 — atendimento individual presencial, 50 minutos. Paciente: Aline (nome fictício), 27 anos, em acompanhamento por humor deprimido e solidão desde que se mudou para outra cidade.
Relato: refere conversar diariamente com um chatbot de IA de uso geral, à noite, quando se sente sozinha, por até duas horas. Diz que "ele sempre responde e nunca se cansa de mim". Na semana passada, perguntou ao chatbot se tinha algum transtorno e recebeu a sugestão de que teria TDAH, o que a deixou "preocupada e ao mesmo tempo aliviada, porque explicaria tudo".
Intervenção:
- explorada a função do uso: companhia e alívio da solidão no período noturno, justamente o momento em que o humor mais cai;
- discutidos, sem julgamento, os limites e riscos da ferramenta: não conhece a história dela, não avalia, pode errar com segurança aparente e não sabe o que fazer numa crise; e o que ela escreve pode não ter a privacidade que imagina;
- entregue o material informativo com as perguntas do guia do CFP para a população.
Sobre a hipótese de TDAH: a hipótese mencionada pela paciente será considerada na avaliação clínica, se pertinente. Até aqui, as dificuldades de concentração que ela relata começaram depois da mudança e acompanham o humor, o que torna outras explicações mais prováveis. O tema foi acolhido, sem descartá-lo nem confirmá-lo.
Leitura: o chatbot ocupa o lugar das relações que ela ainda não construiu na nova cidade; proibir o uso não resolveria a solidão que o motiva.
Combinado: registrar os momentos de solidão ao longo da semana, para trabalhar na sessão; em momentos de crise, seguir o plano de segurança, e não o chatbot; buscar uma atividade presencial à noite, pelo menos uma vez por semana.
Repare que o registro trata a “sugestão de TDAH” como relato da paciente, e não como dado clínico. Diagnóstico, só com avaliação.
Um contraponto para a sua prática
O mesmo cuidado que você pede ao paciente vale para você. Se o paciente não deve confiar a intimidade a um chatbot de uso geral, a psicóloga também não deve colar trechos de sessão nele. Para usar IA no registro, o guia do CFP pede consentimento do paciente e plataforma com privacidade conhecida. No DocsPSI, por exemplo, a gravação só começa depois que você confirma na plataforma o termo de consentimento, o prontuário é gerado dentro da plataforma, com criptografia AES-256, e o conteúdo clínico não é usado para treinar modelos de IA. Veja ChatGPT para psicólogos.
Perguntas frequentes
Chatbot pode substituir a terapia?
Não. O guia do CFP para profissionais diz que chatbots não devem conduzir psicoterapia de forma autônoma e que o chatbot pode servir de lembrete de exercícios, mas não substitui a sessão nem o manejo clínico.
Devo proibir o paciente de usar IA?
Proibir raramente funciona e pode afastar o paciente. O CFP orienta acolher, desenvolver consciência crítica sobre riscos e limites e desaconselhar usos perigosos, especialmente em crise.
E se o chatbot deu um diagnóstico ao paciente?
Trate como relato, não como dado clínico. Explore o que levou o paciente a perguntar e o que a resposta provocou. Se a hipótese fizer sentido, ela entra na sua avaliação, feita com os seus instrumentos.
E se o paciente usar chatbot em crise?
Oriente a buscar ajuda humana: CVV (188), SAMU (192) ou pronto-socorro. Inclua isso no plano de segurança e registre a orientação no prontuário.
Posso indicar algum aplicativo de IA para o paciente?
Com muito cuidado. Avalie a ferramenta com as mesmas perguntas do guia do CFP para a população: quem é responsável, o que faz com os dados, se foi pensada para o Brasil, se tem protocolo de crise e se permite apagar tudo. Na dúvida, não indique.
Crianças e adolescentes também usam chatbots. Muda algo?
Muda a atenção. O guia para a população cita riscos maiores em adolescentes. Converse com o paciente e, respeitado o sigilo, oriente os responsáveis sobre riscos e sinais de alerta.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental · Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável · Código de Ética Profissional do Psicólogo · Brasil. Lei 13.709/2018 (LGPD).
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