Pular para o conteúdo

Pacientes usando chatbots: como abordar na sessão

Chatbot de saúde mental e seus pacientes: o que os guias do CFP orientam, como abordar na sessão, sinais de alerta, crise e como registrar no prontuário.

Paciente e terapeuta conversando sobre o uso de chatbots como apoio emocional.
Sumário8 seções

“Eu conversei com a IA e ela disse que eu tenho TDAH.” “Conto para o chat coisas que não conto para ninguém.” Frases assim já fazem parte do consultório. Ignorar não ajuda, e condenar costuma afastar. Há um caminho no meio: tratar o uso do chatbot como material clínico, com informação clara sobre os riscos.

Este guia reúne o que o CFP orienta, um roteiro para a conversa na sessão, uma folha para entregar ao paciente e um modelo de registro. O panorama sobre IA na prática profissional está em IA para psicólogos.

O que o CFP orienta

O Conselho publicou dois materiais que se completam:

Para a psicóloga, a orientação tem três partes:

PosturaO que significa na sessão
Acolher a demandaPerguntar sobre o uso sem julgar e convidar o paciente a trazer o que a IA respondeu
Desenvolver consciência críticaConversar sobre eficácia, privacidade, experiência e limites da ferramenta
Desaconselhar usos perigososDeixar claro o que não fazer, especialmente em crise ou quando a ferramenta dá falsa sensação de tratamento

O guia para profissionais resume a mensagem ao paciente em uma frase: acolha sem julgamento, explique limites e riscos e convide a trazer os conteúdos gerados pela IA para a discussão clínica.

Por que os chatbots preocupam

O guia para a população é direto sobre os riscos. Em linguagem de consultório:

RiscoO que aconteceComo explicar ao paciente
Validação excessivaO chatbot tende a concordar com o usuário para mantê-lo engajado“Ele concorda com você mesmo quando isso não ajuda.”
Erros com segurançaRespostas inventadas, inclusive “diagnósticos”“Ele pode errar com muita convicção.”
PrivacidadeConversas podem ser armazenadas, usadas para treinar a IA ou compartilhadas“O que você escreve pode não ficar só entre vocês.”
ApegoRelação unilateral com um sistema sempre disponível, que pode substituir vínculos reais“Ele parece amigo, mas não é uma relação.”
ViésRespostas pouco adaptadas à cultura e à diversidade brasileiras“Ele pode não entender o seu contexto.”
Adiamento da ajudaA sensação de alívio posterga a busca por cuidado qualificado“Pode parecer resolvido, mas o problema continua.”

O guia também é enfático sobre quem não deve usar chatbot como apoio: pessoas em crise, com pensamentos suicidas, com quadros graves ou complexos, ou lidando com traumas profundos. Nesses casos, o risco de dano supera qualquer benefício.

Como abordar na sessão

Um roteiro em cinco passos, para adaptar ao seu estilo e à sua abordagem:

  1. Pergunte com curiosidade. “Como tem sido conversar com a IA? Em que momentos você recorre a ela?”
  2. Entenda a função. Companhia, desabafo, busca de explicação, evitar o julgamento de alguém?
  3. Explore o efeito. “Depois dessas conversas, como você fica?” Alívio, dependência, mais ansiedade?
  4. Traga o conteúdo para a sessão. “Quer me mostrar o que ela respondeu? Podemos pensar juntos.”
  5. Combine usos e limites. Se fizer sentido, um uso restrito, como lembrar uma técnica treinada, e uma regra clara para os momentos de crise.

A função que o chatbot cumpre costuma ser o dado clínico mais rico. A paciente que conversa com a IA toda noite, sozinha, está contando algo sobre solidão e rede de apoio antes de estar contando algo sobre tecnologia.

Sinais de que é hora de parar

O guia para a população lista sinais para desconfiar da ferramenta e parar de usar. Vale repassar com o paciente:

  • o paciente se sente mais ansioso, confuso ou invalidado depois das conversas;
  • o chatbot dá conselhos diretivos sobre remédios, relacionamentos ou outras decisões importantes;
  • as respostas são repetitivas, genéricas ou sem relação com o que foi dito;
  • o aplicativo pede permissões sem sentido, como contatos, arquivos ou localização;
  • o aplicativo pressiona para assinar a versão paga explorando a vulnerabilidade emocional (“para continuar se sentindo melhor, assine agora”).

Folha para entregar ao paciente

O guia para a população traz um checklist de sete perguntas para quem pensa em usar um chatbot de saúde mental. A folha abaixo é uma adaptação para entregar na sessão.

ModeloAntes de usar um chatbot para falar do que você sente

Estas perguntas vêm do guia do Conselho Federal de Psicologia para a população. Se a maioria das respostas for “não” ou “não sei”, repense o uso.

  1. O aplicativo foi feito para saúde mental ou é de uso geral?
  2. Sei quem é a empresa responsável e como entrar em contato?
  3. A política de privacidade diz, de forma compreensível, o que fazem com o que eu escrevo?
  4. O aplicativo foi pensado para a cultura e a língua do Brasil?
  5. Ele promete curas ou resultados milagrosos? (Se sim, desconfie.)
  6. Ele mostra o que fazer em crise, com contato de ajuda humana?
  7. Consigo apagar minha conta e todas as minhas conversas de vez?

Importante: o chatbot não substitui o seu acompanhamento psicológico. Se quiser, traga para a sessão o que ele respondeu.

Em crise, procure ajuda humana: CVV, ligue 188. SAMU, ligue 192. Ou vá ao pronto-socorro mais próximo.

Em crise, o chatbot não é a resposta

É a mensagem mais importante do guia para a população. O chatbot não maneja crise e não responde pelos danos que causa. Com pacientes em acompanhamento, isso deve estar no plano de segurança: quem chamar, para onde ir e quais serviços usar, como o CVV (188) e o SAMU (192). Veja plano de segurança e os limites da IA diante do risco em IA e avaliação de risco.

Como registrar no prontuário

O uso de chatbot é informação clínica e merece registro, como qualquer outro dado relevante da sessão. O exemplo é fictício.

ModeloRegistro no prontuário — exemplo fictício

Data: 12/11/2025 — Sessão 14 — atendimento individual presencial, 50 minutos. Paciente: Aline (nome fictício), 27 anos, em acompanhamento por humor deprimido e solidão desde que se mudou para outra cidade.
Relato: refere conversar diariamente com um chatbot de IA de uso geral, à noite, quando se sente sozinha, por até duas horas. Diz que "ele sempre responde e nunca se cansa de mim". Na semana passada, perguntou ao chatbot se tinha algum transtorno e recebeu a sugestão de que teria TDAH, o que a deixou "preocupada e ao mesmo tempo aliviada, porque explicaria tudo".
Intervenção:

  • explorada a função do uso: companhia e alívio da solidão no período noturno, justamente o momento em que o humor mais cai;
  • discutidos, sem julgamento, os limites e riscos da ferramenta: não conhece a história dela, não avalia, pode errar com segurança aparente e não sabe o que fazer numa crise; e o que ela escreve pode não ter a privacidade que imagina;
  • entregue o material informativo com as perguntas do guia do CFP para a população.

Sobre a hipótese de TDAH: a hipótese mencionada pela paciente será considerada na avaliação clínica, se pertinente. Até aqui, as dificuldades de concentração que ela relata começaram depois da mudança e acompanham o humor, o que torna outras explicações mais prováveis. O tema foi acolhido, sem descartá-lo nem confirmá-lo.
Leitura: o chatbot ocupa o lugar das relações que ela ainda não construiu na nova cidade; proibir o uso não resolveria a solidão que o motiva.
Combinado: registrar os momentos de solidão ao longo da semana, para trabalhar na sessão; em momentos de crise, seguir o plano de segurança, e não o chatbot; buscar uma atividade presencial à noite, pelo menos uma vez por semana.

Repare que o registro trata a “sugestão de TDAH” como relato da paciente, e não como dado clínico. Diagnóstico, só com avaliação.

Um contraponto para a sua prática

O mesmo cuidado que você pede ao paciente vale para você. Se o paciente não deve confiar a intimidade a um chatbot de uso geral, a psicóloga também não deve colar trechos de sessão nele. Para usar IA no registro, o guia do CFP pede consentimento do paciente e plataforma com privacidade conhecida. No DocsPSI, por exemplo, a gravação só começa depois que você confirma na plataforma o termo de consentimento, o prontuário é gerado dentro da plataforma, com criptografia AES-256, e o conteúdo clínico não é usado para treinar modelos de IA. Veja ChatGPT para psicólogos.

Perguntas frequentes

Chatbot pode substituir a terapia?

Não. O guia do CFP para profissionais diz que chatbots não devem conduzir psicoterapia de forma autônoma e que o chatbot pode servir de lembrete de exercícios, mas não substitui a sessão nem o manejo clínico.

Devo proibir o paciente de usar IA?

Proibir raramente funciona e pode afastar o paciente. O CFP orienta acolher, desenvolver consciência crítica sobre riscos e limites e desaconselhar usos perigosos, especialmente em crise.

E se o chatbot deu um diagnóstico ao paciente?

Trate como relato, não como dado clínico. Explore o que levou o paciente a perguntar e o que a resposta provocou. Se a hipótese fizer sentido, ela entra na sua avaliação, feita com os seus instrumentos.

E se o paciente usar chatbot em crise?

Oriente a buscar ajuda humana: CVV (188), SAMU (192) ou pronto-socorro. Inclua isso no plano de segurança e registre a orientação no prontuário.

Posso indicar algum aplicativo de IA para o paciente?

Com muito cuidado. Avalie a ferramenta com as mesmas perguntas do guia do CFP para a população: quem é responsável, o que faz com os dados, se foi pensada para o Brasil, se tem protocolo de crise e se permite apagar tudo. Na dúvida, não indique.

Crianças e adolescentes também usam chatbots. Muda algo?

Muda a atenção. O guia para a população cita riscos maiores em adolescentes. Converse com o paciente e, respeitado o sigilo, oriente os responsáveis sobre riscos e sinais de alerta.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

Procurando outro tema?

Busque pelo título ou pelo assunto entre todos os guias do blog.