Pular para o conteúdo

Formulação de caso em TCC: modelo e exemplo

Formulação de caso em TCC: o que é, modelo dos 5 Ps (problema, predisponentes, precipitantes, perpetuadores, proteção), exemplo e uso no plano.

Formulação de caso construída em conjunto com fatores e recursos fictícios preenchidos.
Sumário7 seções

A formulação é o elo entre avaliação e intervenção: sem ela, o tratamento vira uma sequência de técnicas; com ela, cada técnica tem uma função no caso. Visão geral em TCC na prática.

Formulação x conceituação cognitiva

A conceituação cognitiva de Judith Beck foca crenças e pensamentos. A formulação de caso é um termo mais amplo, que inclui fatores biológicos, sociais, contextuais e comportamentais. Na prática, elas se complementam.

O modelo dos 5 Ps

PPerguntaExemplos
ProblemaO que traz a pessoa agora?Crises de pânico, evitação de transporte público
PredisponentesO que aumentou a vulnerabilidade?Histórico familiar de ansiedade, criação superprotetora
PrecipitantesO que disparou o quadro?Primeira crise após período de estresse intenso
PerpetuadoresO que mantém o problema hoje?Evitação, interpretação catastrófica de sensações, comportamentos de segurança
ProteçãoO que ajuda?Rede de apoio, motivação, emprego estável

Os perpetuadores são os mais importantes para o plano, porque são o alvo direto das intervenções.

Exemplo preenchido (fictício)

ModeloFormulação de caso — 5 Ps (exemplo fictício)

Paciente: Marcelo (nome fictício), 29 anos, analista financeiro, em TCC há quatro sessões.

Problema: crises de pânico semanais há cinco meses, com coração disparado, falta de ar, formigamento nas mãos e medo de "ter um infarto". Evita metrô e ônibus e passou a ir ao trabalho de carro por aplicativo, o que custa um terço do salário. Deixou de ir às reuniões presenciais, que acontecem num andar alto. Foi três vezes ao pronto-socorro, com exames cardíacos normais. O registro das duas primeiras semanas mostrou quatro crises e checagem do pulso cerca de vinte vezes por dia.

Predisponentes:

  • a mãe tem transtorno de ansiedade e "sempre achava que ia passar mal";
  • tendência, desde a adolescência, a monitorar sinais corporais;
  • um tio morreu de infarto aos 45 anos, quando Marcelo tinha 15, o que tornou o coração o foco natural do medo.

Precipitantes: a primeira crise ocorreu no metrô lotado, em abril, numa semana de fechamento de balanço em que dormiu cerca de quatro horas por noite e tomou muito café. A sensação de calor e o coração acelerado foram interpretados, ali, como sinal de infarto.

Perpetuadores:

  • interpretação catastrófica da taquicardia ("vou ter um infarto"), que aumenta a ansiedade e, com ela, a própria taquicardia, num ciclo descrito no modelo cognitivo do pânico (Clark, 1986);
  • evitação do transporte e das reuniões, que impede que ele descubra que as sensações passam sem nada acontecer;
  • comportamentos de segurança, como andar sempre com água e um remédio para ansiedade que nunca tomou, e sentar perto da porta. Eles fazem Marcelo atribuir a ausência de desastre a essas proteções, e não ao fato de o perigo não existir;
  • checagem constante do pulso, que mantém a atenção no corpo e encontra "sinais" o tempo todo.

Proteção: parceiro apoiador, que já o acompanhou em trajetos curtos; bom vínculo com a equipe de trabalho; alta motivação para o tratamento; ausência de uso de álcool ou de outras substâncias.

Hipótese de manutenção: a evitação e os comportamentos de segurança impedem a desconfirmação da crença de perigo, mantendo o medo das sensações corporais. O medo, hoje, não é tanto do metrô, mas do que o corpo pode sentir dentro dele.

Diagnóstico diferencial considerado: causas cardíacas foram afastadas pelos exames; o consumo de café, que era alto, foi reduzido na segunda semana, sem mudança na frequência das crises, o que afasta a cafeína como explicação principal.

Implicações para o tratamento:

  • psicoeducação sobre pânico, com o ciclo desenhado a partir de uma crise dele;
  • reestruturação das interpretações catastróficas, com o exame das evidências (três exames normais, crises que sempre passaram);
  • exposição interoceptiva, provocando em sessão sensações parecidas, como correr no lugar para acelerar o coração, para que ele aprenda que elas são toleráveis;
  • exposição in vivo gradual ao transporte, construída com ele;
  • retirada progressiva dos comportamentos de segurança, começando pela checagem do pulso.

Obstáculos previstos: a exposição interoceptiva pode ser recusada no início, por medo de "provocar um infarto". Por isso, ela virá depois da psicoeducação e com a concordância do médico que o acompanha.

Como construir com o paciente

  1. Comece pelos episódios concretos mais recentes.
  2. Desenhe os ciclos de manutenção (situação → pensamento → emoção → comportamento → consequência).
  3. Pergunte "o que acontece depois?" para identificar reforçadores.
  4. Compartilhe um desenho simples e peça feedback.
  5. Teste a formulação: as intervenções baseadas nela funcionam?

Da formulação ao plano

Cada perpetuador vira um objetivo e uma estratégia no plano de tratamento em TCC. Para abordagens contextuais, veja formulação de caso em ACT.

Onde registrar

A formulação é hipótese clínica: anote no prontuário a sessão em que foi construída ou compartilhada.

O Manual Orientativo do CFP (2025) orienta deixar no registro documental as hipóteses e interpretações não compartilhadas com o paciente. Na TCC, a formulação costuma ser construída e compartilhada com ele; nesse caso, a versão combinada pode constar no prontuário, e o que ainda é hipótese sua fica no registro documental. Veja registro documental x prontuário.

Formulação de caso no DocsPSI: revisar a hipótese com os dados do caso

Uma formulação boa é revista: a hipótese de manutenção proposta na quarta sessão precisa ser confrontada com o que acontece depois. Na prática, ela costuma ser escrita uma vez e esquecida, porque revisar exige reler todas as sessões.

No DocsPSI, cada sessão, gravada com consentimento ou importada depois em áudio, vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções, e a seção de reflexão profissional guarda as hipóteses de trabalho, sempre como provisórias. A Linha do Tempo Terapêutica mostra o percurso inteiro e sugere pontos para a próxima sessão, e a supervisão por IA, disponível 24 horas, ajuda a testar a formulação com o caso à vista: os 5 Ps explicam o que aconteceu nas últimas semanas? Os fatores de manutenção mudaram? É apoio à reflexão, e não substitui a supervisão humana. Na biblioteca de recursos, o planejamento de exposição e o teste colaborativo de uma previsão transformam as implicações da formulação em tarefas que o paciente responde por link.

A formulação é sua: a IA sugere, você decide. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.

Perguntas frequentes

O que é formulação de caso em TCC?

É uma hipótese explicativa sobre a origem e a manutenção dos problemas do paciente, que orienta a escolha das intervenções.

O que são os 5 Ps?

Problema, fatores Predisponentes, Precipitantes, Perpetuadores (mantenedores) e de Proteção.

A formulação muda ao longo do tratamento?

Sim. Ela é uma hipótese revisada à medida que surgem novos dados e que as intervenções mostram o que funciona.

Onde registro a formulação de caso?

A versão compartilhada com o paciente pode constar no prontuário; hipóteses ainda não compartilhadas ficam no registro documental.

Referências: Kuyken, W.; Padesky, C. A.; Dudley, R. Conceitualização de casos colaborativa. Porto Alegre: Artmed, 2010 · Beck, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022 · Conselho Federal de Psicologia. Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) · Clark, D. M. A cognitive approach to panic. Behaviour Research and Therapy, 24(4), 461-470, 1986.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

Procurando outro tema?

Busque pelo título ou pelo assunto entre todos os guias do blog.