Sumário6 seções
É comum um paciente satisfeito indicar a própria mãe, o irmão ou o cônjuge. O gesto é de confiança — mas aceitar pode comprometer os dois processos. Este guia mostra os riscos, quando pode fazer sentido, o caso do casal que se separa, um roteiro de decisão e como registrar. Veja também o caso vizinho de atender parente ou amigo.
Os riscos
- Sigilo sob pressão: você sabe o que um disse sobre o outro e precisa agir como se não soubesse.
- Aliança percebida: cada um pode sentir que você "está do lado" do outro.
- Triangulação: um familiar tenta usar você como mensageira ou árbitra.
- Contaminação clínica: informações de um processo influenciam sua escuta no outro.
- Conflitos futuros: separação, disputa de guarda ou herança podem colocar você no meio.
Quando pode fazer sentido
| Situação | Avaliação |
|---|---|
| Terapia de casal ou familiar | É o método: todos sabem que estão no mesmo processo |
| Criança em terapia + orientação aos pais | Parte do atendimento infantil |
| Familiares distantes, sem convivência | Avaliar caso a caso |
| Cidade pequena, sem alternativa | Combinar limites, discutir em supervisão e registrar |
| Mãe e filho adultos, casal, irmãos que convivem | Em regra, encaminhar |
E quando o casal em terapia se separa?
Se um dos parceiros quiser seguir em psicoterapia individual com a mesma psicóloga, a neutralidade construída na terapia de casal fica comprometida para o outro. Muitas profissionais preferem encaminhar ambos para atendimento individual com outras colegas.
Se a separação virar litígio, há uma regra expressa: a psicoterapeuta de qualquer das partes não pode atuar como perita ou assistente técnica no processo, e não pode produzir documentos sobre o processo psicoterápico para a Justiça sem consentimento formal, exceto declarações (Resolução CFP nº 08/2010, art. 10). Veja prontuário solicitado pela Justiça.
Como decidir
- O atendimento conjunto faz parte do método? Se sim, siga os combinados da abordagem.
- Os familiares convivem ou falam um do outro? Se sim, o risco é alto.
- Há alternativa de encaminhamento? Se sim, encaminhe.
- Se decidir atender: combine explicitamente com ambos que nada de um processo será levado ao outro e registre a decisão.
Como registrar a decisão
30/11/2025 — Registro de decisão. Paciente: Luana (nome fictício), 28 anos, em acompanhamento há seis meses.
Pedido: a paciente indicou o irmão, de 25 anos, com quem divide apartamento, para atendimento individual comigo. Contou que ele "está mal" desde que perdeu o emprego e que "só confia em quem ela confia".
Análise: o irmão aparece com frequência nas sessões, em temas de convivência e de dinheiro. Considerando a convivência diária entre os dois e o conteúdo trabalhado nas sessões, avaliou-se risco de interferência nos objetivos do serviço (Código de Ética, art. 2º, "j"): eu passaria a conhecer as duas versões dos mesmos episódios, e Luana poderia se sentir menos livre para falar dele.
Decisão: indicadas duas colegas para o irmão, uma presencial e uma online.
Com a paciente: informada da decisão e de seus motivos, em linguagem simples, e acolhida a preocupação com o irmão. Ela disse que "fazia sentido" e que vai passar os contatos a ele.
Mais sobre as vedações do Código em Código de Ética comentado.
Onde o DocsPSI ajuda
Quando o atendimento conjunto faz parte do método, como na terapia de casal, ou quando você atende familiares em situações excepcionais, cada paciente no DocsPSI tem prontuário, documentos e Linha do Tempo Terapêutica próprios. Cada sessão gravada com consentimento vira um prontuário completo em 7 seções clínicas, que você revisa e assina, sem misturar registros de processos diferentes.
Perguntas frequentes
Psicólogo pode atender mãe e filho?
Em psicoterapia individual de ambos, é desaconselhável pelo risco de conflito de sigilo e de aliança. No atendimento infantil, orientar os pais faz parte do processo da criança.
Posso atender o ex-marido de uma paciente?
É arriscado, sobretudo se houver conflitos entre eles. A recomendação é encaminhar.
A terapia de casal conta como atender a mesma família?
Não no mesmo sentido: na terapia de casal ou familiar, o atendimento conjunto é o método e todos sabem que participam do mesmo processo.
Como recusar a indicação sem magoar o paciente?
Agradeça a confiança, explique que a recusa protege o processo dele e o do familiar e ofereça nomes de colegas. Em geral, o paciente entende melhor quando ouve que o espaço dele continua só dele.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005), arts. 2º e 9º · Resolução CFP nº 08/2010, art. 10.
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