Sumário8 seções
“Você não pode me passar um remédio para dormir?” A pergunta é comum e costuma vir de alguém cansado, que quer alívio rápido. A resposta precisa ser firme e acolhedora ao mesmo tempo. Bem conduzida, ela vira um bom encaminhamento e fortalece o vínculo.
Este guia mostra os limites da psicóloga em relação à medicação, quando encaminhar, como responder ao paciente, como escrever ao médico e como registrar.
Por que a psicóloga não receita
A indicação de medicamentos é atribuição legal de outras profissões. O Código de Ética Profissional do Psicólogo dá o caminho: no relacionamento com profissionais não psicólogos, a psicóloga encaminhará a profissionais habilitados e qualificados as demandas que extrapolem seu campo de atuação (art. 6º, “a”). Na divulgação dos serviços, o art. 20, “g”, veda propor atividades privativas de outras categorias.
Orientar dose, trocar medicação ou sugerir suspensão, mesmo de modo informal, põe o paciente em risco e sai do campo da psicologia. Isso vale também para frases aparentemente inofensivas, como “acho que você podia parar esse remédio”.
O que a psicóloga pode e o que não pode
| Pode | Não pode |
|---|---|
| Perceber sinais de que a avaliação médica é necessária | Receitar ou indicar medicamentos |
| Encaminhar ao psiquiatra ou ao médico assistente | Sugerir dose, troca ou suspensão |
| Conversar com o médico, com autorização do paciente | Recomendar fitoterápico ou suplemento como tratamento |
| Psicoeducar sobre adesão, expectativas e dúvidas a levar ao médico | Dar opinião sobre a medicação que o médico prescreveu |
| Registrar os efeitos que o paciente relata perceber | Interpretar exames laboratoriais |
Quando encaminhar para avaliação médica
- Sintomas intensos ou que não melhoram com a psicoterapia.
- Risco de suicídio ou de agressão. Veja avaliação de risco de suicídio.
- Alterações importantes da percepção, do pensamento ou do nível de consciência.
- Suspeita de causa orgânica, como efeitos de substâncias ou doenças clínicas.
- Prejuízo funcional importante: a pessoa não consegue trabalhar, estudar ou cuidar de si.
- Alterações relevantes de sono ou apetite que persistem.
- O próprio paciente quer avaliar a possibilidade de tratamento medicamentoso.
Se houver dúvida sobre o componente neurológico ou cognitivo, veja também quando encaminhar para avaliação neuropsicológica.
Como responder ao pedido na sessão
Um jeito de responder que acolhe, informa e encaminha:
- Reconheça o pedido. “Faz sentido querer alívio, você está dormindo mal há semanas.”
- Explique o limite com clareza. “Eu não posso receitar remédios. Isso é feito pelo médico.”
- Diga por que o encaminhamento ajuda. “Uma avaliação com psiquiatra pode ver se a medicação ajudaria agora.”
- Mostre que o cuidado continua. “Seguimos com a terapia, e posso conversar com o médico, se você autorizar.”
- Combine o próximo passo. Serviço possível (rede pública, convênio, particular) e quando retomar o assunto.
Como escrever ao médico
Com autorização do paciente, um documento breve ajuda o psiquiatra e mostra que o cuidado é compartilhado. Atenção à forma: pelo art. 3º da Resolução CFP nº 06/2019, toda comunicação escrita da psicóloga segue essa resolução. Uma “carta de encaminhamento” não é modalidade própria; quando você comunica a sua atuação a outro profissional, o documento é o relatório psicológico, com seus cinco itens. O art. 6º, “b”, do Código de Ética pede ainda que você compartilhe só o que for relevante, assinalando ao destinatário a responsabilidade pelo sigilo. O exemplo é fictício e resumido.
Título: Relatório Psicológico
Número do documento: RP - 05/2026-6NA2Q (numeração gerada pelo sistema)
1. Identificação. Pessoa atendida: Sabrina Moura (nome fictício), 36 anos, analista contábil. Solicitante: a própria paciente, para apresentação ao médico psiquiatra. Finalidade: subsidiar a avaliação psiquiátrica. Autora: Nome Sobrenome, psicóloga, CRP 00/00000.
2. Descrição da demanda. Sabrina está em acompanhamento psicológico semanal desde março de 2026, por ansiedade e sobrecarga no trabalho, que se intensificaram no fechamento contábil do primeiro trimestre. Há cerca de seis semanas, relata insônia inicial e intermediária quase diária, cansaço intenso e dificuldade de concentração, com erros em planilhas que antes não cometia. Não tem história de tratamento psiquiátrico. As informações foram fornecidas pela própria paciente.
3. Procedimento. Onze sessões semanais de 50 minutos, presenciais, de abordagem cognitivo-comportamental, entre 11/03 e 20/05/2026, com entrevistas clínicas, psicoeducação sobre ansiedade e sono, controle de estímulos e horário regular para dormir e acordar, reestruturação das preocupações noturnas e registros de sono e de atividades feitos pela paciente.
4. Análise. Sabrina aderiu ao acompanhamento: compareceu a todas as sessões e preencheu os registros em quase todos os dias. A ansiedade diurna diminuiu, e ela passou a delegar parte das tarefas no trabalho. O sono, porém, não melhorou. O registro das últimas quatro semanas mostra que ela leva em média 70 minutos para adormecer, acorda duas a três vezes por noite e dorme cerca de quatro horas e meia, apesar de seguir as orientações de controle de estímulos. O cansaço já prejudica o desempenho profissional. Nega uso de álcool para dormir e de outras substâncias; toma dois cafés pela manhã. Não há, até o momento, relato de ideação suicida, perguntada em todas as sessões, e ela mantém o apoio do companheiro.
A persistência da insônia depois de seis semanas de intervenção comportamental, com boa adesão, é o motivo do encaminhamento: pode haver fatores que a psicoterapia sozinha não alcança e que precisam de avaliação médica.
5. Conclusão. Encaminho para avaliação psiquiátrica, com manutenção do acompanhamento psicológico semanal. Pede-se ao colega que avalie a insônia persistente e a necessidade de tratamento complementar. Coloco-me à disposição para contato, com autorização da paciente.
Este documento contém informações sigilosas, compartilhadas apenas no que é relevante para o cuidado, cabendo ao destinatário preservar o sigilo. Este relatório tem validade de 3 (três) meses a partir da data de emissão.
Vitória/ES, 21 de maio de 2026.
Nome Sobrenome — Psicóloga — CRP 00/00000
Assinatura digital
Mais detalhes em relatório psicológico para psiquiatra e em carta de encaminhamento. Lembre do protocolo de entrega assinado, obrigatório pelo art. 16, § 1º, da mesma resolução.
Como registrar no prontuário
O encaminhamento é parte do trabalho e deve ficar no registro, com o motivo, o que foi combinado e o retorno. Um exemplo de anotação:
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Motivo | Insônia persistente e prejuízo funcional, sem melhora com a psicoterapia |
| Conduta | Encaminhamento para avaliação psiquiátrica, discutido com a paciente |
| Autorização | Paciente autorizou o envio de carta ao psiquiatra |
| Acompanhamento | Retomar o tema na próxima sessão; registrar o retorno da avaliação |
Quando o paciente já usa medicação
A psicóloga acompanha a pessoa inteira, inclusive a relação dela com o remédio. Pode e deve:
- escutar o que o paciente sente com a medicação e registrar os efeitos que ele relata;
- estimular que ele leve dúvidas e efeitos percebidos ao médico, em vez de ajustar por conta própria;
- conversar com o médico, com autorização, compartilhando só o que for relevante;
- trabalhar crenças e expectativas sobre o tratamento, sem opinar sobre a escolha do remédio.
Se o paciente disser que parou a medicação por conta própria, o caminho é acolher, registrar e orientar que procure o médico, e não avaliar se ele fez bem ou mal.
Onde o DocsPSI ajuda
Casos com acompanhamento compartilhado pedem registro contínuo e fácil de consultar. No DocsPSI, cada sessão gravada com consentimento vira um prontuário completo em 7 seções clínicas, que você revisa e assina, e a Linha do Tempo Terapêutica reúne prontuários e documentos numa visão única, útil para lembrar quando foi o encaminhamento e o que mudou depois. Relatórios e declarações para outros profissionais saem com QR Code de autenticidade.
Perguntas frequentes
Psicólogo pode receitar remédio para ansiedade?
Não. A indicação de medicamentos é ato médico. A psicóloga pode encaminhar para avaliação psiquiátrica e seguir com a psicoterapia, em parceria com o médico.
Psicólogo pode indicar remédio natural?
Não deve indicar fitoterápicos ou suplementos como tratamento. Isso extrapola a competência da psicologia e pode trazer riscos, inclusive interações com outros medicamentos.
A psicóloga pode conversar com o psiquiatra do paciente?
Sim, com autorização do paciente, compartilhando apenas as informações relevantes para o cuidado e assinalando ao destinatário a responsabilidade pelo sigilo (Código de Ética, art. 6º, “b”).
O que fazer se o paciente parou a medicação por conta própria?
Acolher, registrar no prontuário e orientar que procure o médico que prescreveu. A psicóloga não avalia se a suspensão foi adequada.
A psicóloga pode sugerir que o paciente procure um psiquiatra específico?
Pode indicar serviços e profissionais, desde que a escolha continue sendo do paciente e não haja nenhuma vantagem para a psicóloga na indicação.
Encaminhar para o psiquiatra significa que a terapia não está funcionando?
Não. Muitos quadros se beneficiam do cuidado combinado. Explicar isso ao paciente ajuda a reduzir o receio de ser encaminhado.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005), arts. 6º e 20 · Resolução CFP nº 06/2019.
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