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Anamnese psicológica com idosos

Anamnese psicológica com idosos: roteiro de saúde, medicações, memória, funcionalidade, perdas, violência e autonomia, com sigilo e papel da família.

Entrevista com pessoa idosa, valorizando trajetória, autonomia e rotina.
Sumário7 seções

A velhice traz demandas próprias: adoecimentos, perdas, mudanças de papel, questões cognitivas, dependência. E também muitos recursos. A anamnese precisa captar os dois lados, sem reduzir a pessoa aos seus diagnósticos. Roteiro geral em anamnese psicológica.

Roteiro

ÁreaPontos
QueixaO que motivou a busca? Quem sugeriu? A própria pessoa concorda?
SaúdeDoenças crônicas, internações, dor, audição e visão
MedicaçõesLista completa (polifarmácia pode afetar humor e cognição)
CogniçãoQueixas de memória, orientação, mudanças percebidas por ela e pela família
FuncionalidadeAtividades básicas (higiene, alimentação) e instrumentais (finanças, remédios, transporte)
Sono e apetiteMudanças recentes
PerdasViuvez, mortes de amigos, perda de papéis, mudança de casa
Rede e rotinaCom quem mora, visitas, atividades, isolamento
AposentadoriaSentido, projetos, finanças
ViolênciaMaus-tratos, negligência, abuso financeiro
RiscoIdeação suicida (atenção especial a homens idosos)
AutonomiaQuem toma decisões? Há conflitos com a família?

Cuidados na entrevista

  • Fale com a pessoa, não sobre ela, mesmo com familiar presente.
  • Adapte o ambiente: boa iluminação, tom de voz claro, tempo maior.
  • Entrevista individual em algum momento — essencial para investigar violência.
  • Não confunda tristeza e luto com declínio cognitivo, nem o contrário.
  • Queixas de memória merecem investigação — veja avaliação neuropsicológica.

Sigilo e família

A pessoa idosa capaz é quem decide o que a família sabe. Informações sobre o atendimento só são compartilhadas com a autorização dela. Quando há interdição, o Código de Ética prevê autorização de ao menos um responsável para o atendimento não eventual (art. 8º) e a comunicação do estritamente essencial para medidas em benefício do atendido (art. 13). Registre de onde veio cada informação: “segundo a filha…”, “segundo a própria paciente…”.

Atendimento online com idosos

A Resolução CFP nº 09/2024 (art. 4º) pede que a psicóloga avalie, antes de atender por meio digital, as competências do usuário no manejo da tecnologia e características como faixa etária e deficiências sensoriais. Com idosos, isso significa checar se a pessoa ouve e vê bem na tela, se consegue entrar na chamada sozinha e se tem um lugar reservado em casa.

Violência contra a pessoa idosa

Suspeitas de violência exigem acolhimento, avaliação de risco e, conforme o caso e o serviço, comunicação aos órgãos competentes — veja violência e notificação.

Registro

ModeloSíntese da anamnese com pessoa idosa — exemplo fictício

Dados do atendimento: 08/10/2025, entrevista de 60 minutos; nos 15 minutos finais, participação do filho, com autorização do paciente. 15/10/2025, sessão individual de 50 minutos. Presencial.
Paciente: Sr. Antônio Ribeiro (nome fictício), 81 anos, motorista de ônibus aposentado, casado há 55 anos, mora com a esposa, de 78. Encaminhado pelo geriatra, que notou tristeza e perda de peso nas duas últimas consultas.

Demanda, nas palavras dele: "depois do tombo, virei um peso para todo mundo". Tristeza, irritabilidade e isolamento desde uma queda em junho: escorregou no banheiro de madrugada, fraturou o punho e ficou três dias internado. Depois da alta, os filhos pediram que ele deixasse de dirigir. Diz que obedeceu "para não brigar", mas que desde então "não sai mais de casa de verdade".

Urgência e proteção:

  • perguntado diretamente, refere que "às vezes pensa que seria melhor não acordar", duas ou três vezes por semana, à noite, sem plano ou intenção;
  • nega tentativas anteriores;
  • o que o impede, nas palavras dele: "a velha, os netos e a horta";
  • sem armas em casa; as medicações ficam guardadas pela esposa, que as separa por dia;
  • toma uma dose de cachaça no almoço de domingo, hábito antigo, sem aumento recente.

O perfil (homem, idoso, perda recente de autonomia, ideação passiva, perda de peso) pede atenção redobrada e reavaliação em todas as sessões.
Saúde e medicações: hipertensão e artrose; usa quatro medicações diárias, conforme a lista trazida. Perdeu cerca de 4 kg desde junho, segundo o geriatra. Não usa aparelho auditivo; o filho conta que ele "aumenta muito a TV" e evita conversas em grupo.
Funcionalidade: realiza sozinho higiene, alimentação e caminhadas curtas; deixou de dirigir e depende dos filhos para ir ao banco e às consultas. Continua cuidando da horta todas as manhãs.
História e sentido da perda: dirigiu ônibus por 32 anos e diz que o volante "foi a vida inteira". O carro era o que o levava ao grupo de aposentados, às quintas, e à casa do irmão. Perder a direção foi perder, ao mesmo tempo, a autonomia, os encontros e uma parte de quem ele é.
Rede: esposa, dois filhos que moram na mesma cidade e quatro netos; parou de frequentar o grupo de aposentados por falta de transporte. O irmão, com quem conversava toda semana, mora em outro bairro.
Observação: orientado no tempo e no espaço, discurso organizado, afeto rebaixado; emocionou-se ao falar do carro. Na segunda sessão, pediu para repetir duas perguntas e se inclinou para ouvir, o que reforça a hipótese de perda auditiva.

Fontes e divergências: o filho relata esquecimentos de recados e de compromissos nos últimos meses, como uma consulta perdida em setembro, e perguntas repetidas no mesmo dia. O paciente não reconhece essa dificuldade e diz que "é a cabeça cheia de preocupação".

Compreensão provisória: sofrimento ligado à perda de autonomia e de identidade depois da queda, com isolamento, ideação passiva sem plano e perda de peso.
Hipóteses a esclarecer: as queixas de memória relatadas pelo filho admitem mais de uma explicação, que esta anamnese não permite distinguir:

  • sintomas depressivos, que costumam prejudicar a atenção e a memória;
  • a provável perda auditiva, que dificulta registrar o que é dito e é também fator de risco para declínio cognitivo e isolamento (Livingston et al., 2020);
  • um processo de declínio cognitivo, que exige avaliação específica.

Próximos passos:

  • psicoterapia semanal, com reavaliação de risco em todas as sessões;
  • buscar com a família alternativas de transporte para o grupo de aposentados e para as visitas ao irmão;
  • sugerir ao geriatra, com autorização do paciente, avaliação auditiva e das queixas de memória;
  • conversar com o paciente sobre a decisão de parar de dirigir, que foi tomada pelos filhos e ainda não foi elaborada por ele.

A decisão sobre o que compartilhar com a família é dele, salvo situação de risco.

Referência: LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020.

Registre a síntese, a funcionalidade e os riscos no prontuário. Informações trazidas pela família devem ter a fonte identificada. Veja também psicoeducação no luto.

Anamnese com pessoas idosas no DocsPSI

Com pessoas idosas, a anamnese costuma ser mais longa, envolve medicamentos, outros profissionais e, às vezes, familiares ou curadores. É muita informação para reter de memória.

No DocsPSI:

  • Roteiros da biblioteca de recursos para temas frequentes nessa fase, como preocupação persistente com a saúde, sintomas físicos persistentes e luto, além de um registro de informações sobre medicamentos e cuidado integrado. São roteiros autorais do DocsPSI, sem pontuação: organizam a escuta, não a substituem.
  • Curatela e teleatendimento: contrato e consentimento para gravação de pessoa sob curatela, termo de consentimento para teleatendimento e um roteiro de segurança e adequação no atendimento remoto.
  • Registro: se preferir gravar, com o consentimento confirmado na plataforma antes de começar, a entrevista vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções, com o relatado separado do observado e da hipótese e a avaliação de risco. Sem internet na hora, grave o áudio no celular e importe depois.

A IA considera a abordagem e a especialidade que você informou nas configurações, e a Linha do Tempo Terapêutica reúne o percurso do caso. Você revisa, decide o que vai para o registro documental e assina. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.

Perguntas frequentes

O que perguntar na anamnese de idosos?

Sobre queixa, saúde, medicações, memória, funcionalidade, perdas, rede de apoio, rotina, violência, risco e autonomia.

A família deve participar da anamnese?

Pode colaborar com informações, mas a pessoa idosa é o sujeito da entrevista e deve ter espaço individual.

Queixa de memória em idoso é sempre demência?

Não. Depressão, ansiedade, efeitos de medicações e outras condições também afetam a memória. A investigação deve ser cuidadosa.

Violência contra a pessoa idosa precisa ser notificada?

Os serviços de saúde, públicos e privados, notificam compulsoriamente a suspeita ou a confirmação de violência contra a pessoa idosa, e o caso é comunicado a órgãos como o Ministério Público (Estatuto da Pessoa Idosa, art. 19). No consultório, acolha, avalie o risco, registre e veja o fluxo em violência e notificação.

Referências: Brasil. Lei 10.741/2003 (Estatuto da Pessoa Idosa), art. 19 · Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo, arts. 8º e 13 · Resolução CFP nº 09/2024.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

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