Sumário7 seções
Na clínica infantil, a criança raramente chega sozinha à terapia: quem traz a queixa são os adultos. A anamnese com os pais organiza essa queixa e reconstrói a história do desenvolvimento. Roteiro geral em anamnese psicológica.
Roteiro por áreas
| Área | Perguntas-guia |
|---|---|
| Queixa | O que preocupa vocês? Desde quando? Em que situações? Quem percebeu primeiro? |
| Gestação e parto | Como foi a gestação? Intercorrências? Tipo de parto? Prematuridade? |
| Desenvolvimento | Quando sentou, andou, falou as primeiras palavras e frases? Controle esfincteriano? |
| Saúde | Doenças, internações, alergias, medicações, audição e visão avaliadas? |
| Sono e alimentação | Rotina de sono, despertares, pesadelos; seletividade alimentar |
| Escola | Adaptação, aprendizagem, relação com colegas e professores, queixas da escola |
| Comportamento e emoções | Birras, medos, agressividade, timidez, como reage a frustrações |
| Brincar e interesses | Do que gosta de brincar? Com quem? Interesses intensos? |
| Telas | Tempo de uso, conteúdos, horário |
| Família | Composição, rotina, regras, divergências entre cuidadores, eventos (separação, luto, mudança) |
| Histórico familiar | Questões de saúde mental ou de aprendizagem na família |
| Expectativas | O que esperam do atendimento? |
Como conduzir
- Se possível, receba ambos os responsáveis — visões diferentes enriquecem a história.
- Comece pela queixa e só depois vá para a história do desenvolvimento.
- Peça exemplos concretos ("conte a última vez que isso aconteceu").
- Explique o enquadre: frequência, papel dos pais, o que será compartilhado — veja sigilo com crianças.
- Documentos úteis: caderneta de saúde, relatórios escolares, avaliações anteriores.
Finalidade, enquadre e autorização
Finalidade do atendimento: · Responsável que autoriza (ao menos um, Código de Ética, art. 8º): · Situação de guarda e restrições judiciais verificadas: · Sigilo com a criança e o que será compartilhado com os responsáveis, combinado em:
Identificação
Criança: · Data de nascimento: · Escola e ano: · Responsáveis e contatos: · Com quem mora: · Quem encaminhou e por quê:
Demanda
O que preocupa os responsáveis (com as palavras deles): · Desde quando: · O que a escola relata: · Como a criança entende a vinda (perguntar a ela, em linguagem acessível):
Urgência e proteção
Sinais de violência, negligência ou abuso: · Autolesão ou falas sobre morrer: · Conduta, se necessária (Conselho Tutelar, rede):
Gestação, parto e primeiros meses
Intercorrências: · Prematuridade: · Adaptação nos primeiros meses:
Desenvolvimento (idade aproximada)
Sentou: · Andou: · Primeiras palavras: · Frases: · Controle diurno e noturno: · Brincar e interação nos primeiros anos:
Saúde, sono e alimentação
Condições de saúde e medicações: · Avaliação de visão e audição: · Sono: · Alimentação e seletividade:
Escola e aprendizagem
Trajetória escolar: · Desempenho: · Relação com colegas e professores: · Mudanças de escola:
Comportamento, emoções e brincar
Como brinca e com quem: · Como reage a frustrações e mudanças: · Medos: · Pontos fortes e interesses:
Rotina e telas
Rotina de um dia comum: · Tempo e tipo de telas:
Família e eventos significativos
Composição e dinâmica: · Nascimentos, separações, mudanças, perdas: · Histórico familiar de saúde:
Fontes, divergências e lacunas
Quem informou o quê: · Divergências entre responsáveis ou entre casa e escola: · O que falta investigar:
Síntese provisória e próximos passos
Compreensão provisória: · Objetivos combinados com os responsáveis e, na medida da idade, com a criança: · Frequência, orientações aos responsáveis e contato com a escola:
Pais separados ou em conflito
- Autorização: o art. 8º do Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável, observada a legislação. Em conflito, informe o outro responsável quando possível e registre o que foi feito.
- Termos de ciência: o Manual Orientativo do CFP (2025) cita, entre os conteúdos do registro documental, os termos de ciência e responsabilidade para atendimentos com crianças e adolescentes, devidamente protocolados.
- Pedidos de sigilo e ameaças: o mesmo Manual inclui no registro documental informações que os responsáveis pediram para manter em sigilo e ameaças de responsáveis legais.
- Disputa judicial: combine desde o início que a psicoterapia não produz documento para o processo sem consentimento formal e que você não atuará como perita ou assistente técnica (Resolução CFP nº 08/2010, art. 10).
Sinais que pedem atenção imediata
Se a anamnese trouxer suspeita de maus-tratos, violência ou negligência, a proteção da criança vem primeiro. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê a comunicação ao Conselho Tutelar nesses casos. Veja violência e notificação e registre as providências.
Quando a investigação é de TEA ou TDAH
A anamnese precisa de mais detalhe sobre desenvolvimento social, comunicação e atenção. Veja anamnese para TEA e anamnese para TDAH.
Registro
Dados do atendimento: 06/10/2025, entrevista com os responsáveis (mãe e pai), 60 minutos, presencial. Criança: Laís (nome fictício), 7 anos, 2º ano do ensino fundamental. Encaminhada pela escola.
Autorização e guarda: pais casados, guarda de ambos; autorização assinada pela mãe e pelo pai. Explicado que o conteúdo das sessões com Laís é sigiloso e que os pais receberão o estritamente essencial para promover o seu cuidado.
Demanda, nas palavras dos pais: "ela chora toda vez que precisa fazer a lição e diz que não sabe". Crises de choro e recusa em fazer a lição há cerca de seis meses, com duração de até uma hora. A escola relata dispersão em atividades longas e choro quando precisa ler em voz alta. Os pais buscam entender "se é emocional ou se é da escola".
Como é a lição, segundo a mãe: Laís senta, lê o enunciado em voz baixa, apaga várias vezes o que escreve e começa a chorar quando a atividade exige leitura de um texto. Nas contas, vai melhor. A mãe notou que a filha "decora" os textos lidos em casa e parece ler, mas se perde quando a palavra é nova.
Urgência e proteção: sem sinais de violência ou negligência relatados; sem falas sobre morrer.
Gestação e desenvolvimento: gestação e parto sem intercorrências. Marcos dentro do esperado, segundo os pais: andou com 1 ano e falou frases aos 2. Trocava sons na fala até os 5 anos ("pato" por "prato"), sem acompanhamento na época.
Saúde, sono e alimentação: sem doenças crônicas; visão e audição avaliadas em 2025, sem alterações; dorme cerca de 9 horas; alimentação variada.
Escola e rotina: mudou de escola no início do ano, por causa do valor da mensalidade. Na escola anterior, o ensino era "mais brincando", e a alfabetização começou mais tarde. Cerca de três horas diárias de telas, sobretudo à noite, enquanto a mãe cuida da irmã.
Família e eventos: nascimento de uma irmã há oito meses; a mãe voltou a trabalhar há dois. Desde então, a avó materna busca Laís na escola. Os pais contam que Laís pede colo "como um bebê" em alguns dias e que, em outros, cuida da irmã com carinho.
Recursos: gosta de desenhar e de montar quebra-cabeças; boa relação com a avó materna; sociável na escola, segundo o relatório da professora.
Fontes e divergências: o pai considera que "é birra" e que ela "consegue quando quer"; a mãe acha que Laís "se sente burra". A divergência aparece também na lição: com o pai, a lição é mais curta e termina em bronca; com a mãe, mais longa e termina em choro. Ainda não ouvida a professora nem observada a criança.
Compreensão provisória: há duas hipóteses, que podem coexistir e precisam ser investigadas em paralelo:
- uma dificuldade específica na leitura: a estratégia de decorar textos, o desempenho melhor em contas, as trocas de sons na fala até os 5 anos e o choro concentrado nas atividades de leitura apontam nessa direção;
- um componente emocional: o nascimento da irmã, a volta da mãe ao trabalho e a mudança de escola, em poucos meses, reduziram o tempo exclusivo com os pais justamente quando as exigências escolares aumentaram.
Tratar tudo como "birra" ou tudo como "ciúme da irmã" deixaria de lado a outra metade do quadro.
Próximos passos:
- sessões semanais com Laís, com jogos que envolvam letras e leitura sem exposição, para observar como ela lida com o texto;
- contato com a professora, mediante autorização escrita, para conhecer o desempenho em leitura em sala;
- se a observação confirmar a hipótese, encaminhamento para avaliação específica da leitura e da linguagem;
- encontro com os pais a cada quatro semanas, com orientação para uma lição curta, com um dos pais por vez, e um momento diário exclusivo com Laís;
- redução das telas à noite.
Registre a síntese da demanda e os objetivos no prontuário; detalhes sensíveis sobre a família que não sejam necessários ao registro compartilhável vão para o registro documental. Veja também evolução na clínica infantil e contrato terapêutico infantil.
Anamnese infantil no DocsPSI: responsáveis, criança e família no mesmo dossiê
A anamnese infantil tem várias frentes: entrevista com os responsáveis, às vezes com cada um separadamente, encontros com a criança, informações da escola. Juntar tudo sem perder quem disse o quê é metade do trabalho.
No DocsPSI:
- Antes de começar: consentimento dos responsáveis com o assentimento da criança e contrato de serviços para criança ou adolescente, da biblioteca de recursos, assinados por link.
- Na entrevista: o roteiro de atendimento psicológico de criança, o roteiro guiado sobre família para crianças e a construção do mapa familiar. São roteiros autorais do DocsPSI, sem pontuação: organizam a escuta, não a substituem.
- Com a criança: recursos lúdicos, como o mapa de sensações e emoções e os cartões de recursos e capacidades, e registros de atividade lúdica.
- No registro: se preferir gravar, com o consentimento confirmado na plataforma antes de começar, a entrevista vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções, com o relatado separado do observado e da hipótese e a avaliação de risco. Sem internet na hora, grave o áudio no celular e importe depois.
Tudo fica no dossiê clínico da criança, a IA considera a abordagem e a especialidade que você informou nas configurações, e a Linha do Tempo Terapêutica mostra o percurso desde a primeira entrevista. Você revisa, lembrando que os responsáveis podem pedir o prontuário, e assina. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.
Perguntas frequentes
A criança participa da anamnese?
A anamnese é feita principalmente com os responsáveis. A criança é conhecida nas sessões lúdicas, com recursos adequados à idade.
Preciso da autorização dos dois pais?
O art. 8º do Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável para atendimento não eventual, observada a legislação vigente. Em contextos de conflito entre os pais, redobre os cuidados.
Quantas sessões para a anamnese infantil?
Em geral, uma ou duas sessões com os responsáveis, podendo haver retornos para completar informações.
E se os pais contarem versões diferentes?
Registre as duas como fontes, sem escolher uma. A divergência é dado clínico e ajuda a planejar o que observar com a criança e o que perguntar à escola, com autorização dos responsáveis.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo, arts. 8º e 13 · Resolução CFP nº 01/2009 · Resolução CFP nº 08/2010 · Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) · Brasil. Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente).
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