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Anamnese psicológica com adolescentes: roteiro

Anamnese psicológica com adolescentes: entrevista com pais e com o jovem, roteiro HEADSS, combinado de sigilo, risco, notificação e registro.

Entrevista de anamnese com adolescente, respeitando sua autonomia e privacidade.
Sumário9 seções

Adolescentes percebem rapidamente se a psicóloga está "do lado dos pais". Uma anamnese bem conduzida mostra que o espaço é deles, sem deixar de envolver a família. Roteiro geral em anamnese psicológica.

Ordem sugerida

  1. Encontro inicial com adolescente e responsáveis: apresentação, motivo da busca, combinados de sigilo.
  2. Entrevista com os responsáveis: história e preocupações.
  3. Entrevista individual com o adolescente — a mais importante.
  4. Síntese com o adolescente e, depois, devolutiva combinada aos pais.

Roteiro com o adolescente (modelo HEADSS adaptado)

ÁreaPerguntas
CasaComo é a convivência em casa? Com quem você se dá melhor?
Escola/educaçãoComo está a escola? O que gosta e o que é difícil?
AtividadesO que faz no tempo livre? Esportes, hobbies, redes sociais?
DrogasÁlcool, cigarro, vape, outras substâncias — você ou seus amigos?
SexualidadeRelacionamentos, identidade, segurança (com tato e no tempo dele)
Suicídio/humorTristeza, irritação, pensamentos de morte, autolesão
SegurançaBullying, violência, situações de risco online

Roteiro com os responsáveis

  • Queixa e quando começou.
  • Gestação, desenvolvimento e saúde.
  • Trajetória escolar.
  • Dinâmica familiar, regras, eventos marcantes.
  • Histórico familiar de saúde mental.
  • Expectativas.

Combinado de sigilo (exemplo)

ModeloCombinado de sigilo com adolescente e responsáveis (exemplo)

O que for conversado nas sessões fica entre a psicóloga e o adolescente. Os responsáveis receberão informações gerais sobre o andamento do trabalho, combinadas antes com o adolescente. Se houver situação de risco à vida ou à segurança dele ou de outras pessoas, a psicóloga comunicará aos responsáveis o estritamente necessário para protegê-lo — e contará antes ao adolescente que fará isso.

Detalhes em o que os pais podem saber.

Síntese da anamnese com adolescente (exemplo fictício)

ModeloSíntese da anamnese com adolescente — exemplo fictício

Dados do atendimento: 14/10/2025, entrevista de 20 minutos com a mãe e o adolescente juntos e 40 minutos só com o adolescente; 21/10/2025, sessão individual de 50 minutos e contato telefônico de 15 minutos com o pai. Presencial.
Adolescente: Gabriel (nome fictício), 15 anos, 1º ano do ensino médio. Mora com a mãe; pais separados desde 2024, guarda compartilhada, com o pai em outro bairro e convivência quinzenal. Autorização assinada pela mãe e ciência do pai por mensagem, confirmada no contato telefônico.
Combinado de sigilo: explicado aos dois, juntos, o que é sigiloso e em que situações os responsáveis serão comunicados (risco à vida ou à segurança), e que Gabriel será avisado antes. Ele perguntou se a mãe "vai ler o que eu falar", e a resposta foi que não.

Demanda da mãe: queda das notas, isolamento no quarto e "celular o tempo todo" desde o início do ano. Conta que já tomou o celular duas vezes e que as brigas "viraram rotina". Teme que ele esteja "deprimido como o avô", que teve depressão.
Demanda do pai (por telefone): acha que é "fase" e que o filho "está bem" nos fins de semana com ele, quando jogam futebol.
Demanda de Gabriel, nas palavras dele: "ninguém entende que eu só queria ficar em paz". Diz que perdeu o grupo de amigos ao mudar de escola, em fevereiro, por causa da mudança de bairro depois da separação, e que joga online à noite porque "lá eu tenho amigos".

História da queixa: na escola antiga, onde estudou desde os 6 anos, tinha um grupo de quatro amigos e bom desempenho. Na nova, tentou se aproximar de um grupo nas primeiras semanas. Em abril, uma foto dele dormindo numa aula virou figurinha num grupo de mensagens da turma, com um apelido. Desde então, deixou de falar em sala, passou a almoçar sozinho e a jogar até de madrugada. As notas caíram a partir do segundo bimestre.

Urgência e proteção (a sós):

  • perguntado diretamente, nega pensamentos de morte e autolesão, atuais e passados;
  • nega uso de álcool e outras drogas;
  • sobre o jogo online: joga com um grupo fixo de cinco pessoas, duas conhecidas da escola antiga; nunca recebeu pedido de fotos ou de encontro de adultos desconhecidos, pergunta feita por rotina;
  • a exposição no grupo de mensagens foi trazida só por ele, que pediu que não fosse contada à mãe por enquanto.

Rotina, sono e saúde: dorme por volta das 3h nos dias de semana e acorda às 6h30; faltou ao primeiro horário em 11 dias no último bimestre. Come pouco no café e no almoço da escola e "compensa à noite". Sem doenças ou medicações.
Humor e interesses: descreve irritação mais do que tristeza. Continua gostando de desenhar personagens e mostrou alguns no celular, com orgulho visível. Diz que o fim de semana com o pai "é o melhor momento".
Recursos: bom desempenho em matemática até o ano passado; mantém contato diário com um amigo da escola antiga; o desenho; o vínculo com o pai no futebol.
Observação: chegou de capuz e fones no pescoço; monossilábico com a mãe na sala, mais falante a sós, sobretudo ao falar dos desenhos. Contato visual breve, afeto irritado no início e mais leve depois. Pensamento organizado.
Fontes e divergências: mãe e Gabriel convergem quanto ao isolamento e ao sono; divergem na explicação (ela, "o celular"; ele, "a escola nova"). O pai vê o filho bem nos fins de semana, o que sugere que o sofrimento está ligado ao contexto escolar, e não generalizado.

Compreensão provisória: isolamento e inversão do sono depois da mudança de escola, que somou a perda dos amigos à separação dos pais, e de uma exposição humilhante no grupo da turma. O jogo online parece funcionar hoje como o único lugar de pertencimento. As madrugadas, por sua vez, mantêm as faltas e a queda das notas, e as brigas em casa reforçam o isolamento no quarto.
Hipóteses a acompanhar:

  • sintomas depressivos, que na adolescência aparecem muitas vezes como irritabilidade, a investigar com cuidado dada a história familiar;
  • ansiedade em situações sociais na escola depois da exposição;
  • o uso do jogo, que por ora parece refúgio, e não perda de controle, e será acompanhado.

Próximos passos: sessões semanais. Retomar a situação do grupo de mensagens e avaliar, com ele, se e como envolver a escola, que tem o dever de agir diante de intimidação sistemática (Lei nº 13.185/2015); a decisão será construída com Gabriel, salvo se surgir risco. Orientação à mãe sobre rotina de sono, com combinados negociados, e não retirada do celular, sem relato do conteúdo das sessões.

Repare que o registro separa a demanda da mãe da demanda do adolescente, que a urgência foi avaliada a sós e que a informação que Gabriel pediu para manter em sigilo está identificada, com a decisão de retomá-la com ele.

Situações frequentes

SituaçãoComo conduzir
Adolescente procura atendimento sem os paisAcolha. Para acompanhamento não eventual, o Código de Ética exige autorização de ao menos um responsável (art. 8º); combine com o adolescente como envolvê-los
Autolesão relatadaAvalie o risco, combine o que será comunicado aos responsáveis e registre. A Lei 13.819/2019 torna de notificação compulsória a automutilação por estabelecimentos de saúde e de ensino; siga o fluxo do seu serviço
Pais pedem para “saber tudo”Retome o combinado de sigilo: só o estritamente essencial (art. 13)
Uso de substânciasPergunte sem julgamento; avalie risco e necessidade de rede especializada
Violência ou abuso relatadoProteção em primeiro lugar; comunicação ao Conselho Tutelar prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente

O prontuário e os pais

O prontuário é acessível ao representante legal (Resolução CFP nº 01/2009, art. 5º, II). Escreva sabendo disso: registre o essencial do trabalho e deixe hipóteses e detalhes confidenciados que não precisam estar ali no registro documental, como orienta o Manual Orientativo do CFP (2025). Veja registro documental x prontuário.

Cuidados

  • Pergunte sobre risco diretamente — autolesão e ideação são frequentes nessa faixa. Veja autolesão em adolescentes.
  • Evite julgamento sobre substâncias e sexualidade.
  • Respeite o ritmo: alguns temas aparecem só depois do vínculo.

Técnicas para a fase seguinte em TCC para adolescentes.

Anamnese com adolescentes no DocsPSI

Com adolescentes, a anamnese depende de confiança, e confiança depende de um combinado de sigilo claro e de uma conversa que não pareça interrogatório.

No DocsPSI, a biblioteca de recursos traz o roteiro de atendimento psicológico de adolescente e recursos que ajudam a conversa a fluir, como vida digital, bem-estar e segurança; identidade em construção; e rede de apoio escolhida. Alguns podem ser enviados ao adolescente por link seguro, para ele responder no próprio celular. O consentimento dos responsáveis com o assentimento do adolescente também está na biblioteca. São roteiros autorais do DocsPSI, sem pontuação: organizam a escuta, não a substituem.

Se preferir gravar, com o consentimento confirmado na plataforma antes de começar, a entrevista vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções, com o relatado separado do observado e da hipótese e a avaliação de risco. Sem internet na hora, grave o áudio no celular e importe depois. A IA considera a abordagem e a especialidade que você informou nas configurações. Na revisão, você decide o que fica no prontuário, que os responsáveis podem pedir, e o que vai para o registro documental, e assina. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.

Perguntas frequentes

Os pais participam da anamnese do adolescente?

Sim, em parte. O ideal é combinar entrevistas com os responsáveis e uma entrevista individual com o adolescente.

O que os pais podem saber sobre a terapia do filho?

O estritamente essencial para promover medidas em benefício do adolescente (Código de Ética, art. 13), conforme combinado no início.

Como perguntar sobre drogas e sexualidade?

De forma direta, sem julgamento, explicando que são perguntas feitas a todos os adolescentes e garantindo o sigilo dentro dos limites combinados.

Posso gravar a sessão com o adolescente?

Só com o consentimento dos responsáveis e o assentimento do próprio adolescente, explicado em linguagem clara e revogável a qualquer momento, como orienta o guia de IA do CFP. Se ele não quiser, não grave.

Referências: Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo, arts. 8º e 13 · Resolução CFP nº 01/2009 · Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) · Brasil. Lei 13.819/2019 · Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) · Goldenring, J. M.; Rosen, D. S. Getting into adolescent HEADS: an essential update. Contemporary Pediatrics, 21(1), 2004 · Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

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