Sumário10 seções
O laudo é escrito no fim, mas começa a ser construído na primeira conversa sobre a demanda. Quem tenta escrevê-lo só com o que lembra da avaliação quase sempre produz um documento frágil. Este passo a passo segue a ordem real do trabalho. A estrutura normativa completa está no guia do laudo psicológico.
Passo 1 — Confirme que é caso de laudo
O laudo é o resultado de um processo de avaliação psicológica (Res. 06/2019, art. 13). Se o pedido é sobre um acompanhamento psicoterápico, o documento provavelmente é um relatório. Na dúvida, compare as modalidades em documentos psicológicos.
Passo 2 — Defina demanda, solicitante e finalidade
Anote desde o início:
- quem solicita (a pessoa, a escola, um médico, o Judiciário);
- para que o documento será usado;
- qual pergunta a avaliação precisa responder.
Essas três respostas vão para o item "Identificação" e orientam todo o resto.
Passo 3 — Planeje a avaliação
Escolha fontes que respondam à pergunta: entrevistas (com a pessoa e informantes), observação, testes, inclusive escalas, inventários e questionários, com parecer favorável no SATEPSI para aquele uso e população (Resolução CFP nº 31/2022, arts. 10 e 12), e fontes complementares, como relatórios da escola ou de outros profissionais. Os procedimentos devem ser pertinentes à complexidade da demanda (Res. 06/2019).
Passo 4 — Registre durante o processo
Cada encontro vai para o registro: data, procedimento, pessoas ouvidas, observações. O registro na avaliação é obrigatório (Resolução CFP nº 31/2022, art. 6º, parágrafo único), e os protocolos de testes ficam em pasta de acesso exclusivo, no registro documental (Resolução CFP nº 01/2009, art. 2º, VI). É esse material que sustenta o laudo, e que o CRP pode solicitar.
Passo 5 — Redija os seis itens
| Item | Pergunta que o item responde |
|---|---|
| Identificação | Quem foi avaliado, quem pediu, para quê, quem assina (com CRP)? |
| Descrição da demanda | O que motivou a avaliação e quem forneceu as informações? |
| Procedimento | O que foi feito, com quem, quantos encontros, quais instrumentos e qual referencial? |
| Análise | O que os dados, integrados, mostram em relação à demanda? |
| Conclusão | O que se conclui e o que se recomenda? |
| Referências | Quais fontes científicas sustentam o trabalho (nota de rodapé)? |
Dicas de redação:
- Escreva a análise antes da conclusão — e verifique se a conclusão não traz nada que a análise não sustente.
- Cite a fonte de cada informação ("segundo a mãe", "nos resultados do instrumento X").
- Não transcreva sessões nem copie tabelas de escores sem interpretação.
- Linguagem acessível ao destinatário, sem perder a precisão técnica.
O que separa um laudo simples de um laudo completo
| Elemento | Laudo simples | Laudo completo |
|---|---|---|
| Finalidade | "Para os devidos fins" | Motivo específico: "subsidiar o planejamento pedagógico e o acompanhamento clínico" |
| Demanda | "Avaliação solicitada pela mãe" | O que levou a família a buscar a avaliação, a linha do tempo do problema, o que já foi tentado, por que a procura acontece agora e quem informou cada dado |
| Procedimento | Lista de testes | Cada instrumento com a sua função, período, número de encontros, informantes e situação no SATEPSI |
| Análise | Resultados listados | Em camadas: comportamento observado, com detalhe concreto; relato; cada instrumento em linguagem leiga, cruzado com as outras fontes, inclusive quando diverge; e formulação do caso na abordagem da psicóloga |
| Termos técnicos | "Hipoprosexia" sem explicação | "Dificuldade de manter a atenção, ou seja, …" |
| Diagnóstico | "É portador de" | "Apresenta quadro compatível com", com a classificação citada |
| Diferenciais | Ausentes ou listados em uma linha | Cada hipótese alternativa argumentada com o dado que a sustenta ou a afasta, e critérios da classificação confrontados um a um quando há conclusão diagnóstica |
| Limites | Não aparecem | O que a avaliação não conseguiu verificar (um informante que faltou, efeito de medicação) e o que fica em aberto |
| Recomendações | "Manter acompanhamento" | Por âmbito (família, escola ou trabalho, tratamento), cada uma com o porquê |
| Final | Só a assinatura | Validade no último parágrafo, parágrafo de confidencialidade e encerramento |
Contexto: Ana (nome fictício), 8 anos, 3º ano do ensino fundamental, avaliada a pedido da família por dificuldade de concluir as atividades escolares. Trecho do item Análise.
Teste de atenção sustentada. O instrumento, com parecer favorável no SATEPSI na data da aplicação, mede a capacidade de manter o foco numa tarefa repetitiva e de ignorar distrações ao longo de alguns minutos. O desempenho de Ana ficou abaixo do esperado para a idade, com aumento dos erros na segunda metade da tarefa, enquanto a velocidade das respostas se manteve. Isso indica que ela consegue começar bem, mas perde a precisão à medida que a tarefa se prolonga, e não que seja lenta ou que não tenha compreendido a instrução.
Cruzamento com as outras fontes. O resultado converge com o relato da professora, de que "ela começa todas as atividades e não termina nenhuma", e com a observação em sessão: nos jogos mais longos, Ana passou a olhar para a janela e a mexer nos materiais depois de cerca de dez minutos, retomando a tarefa quando incentivada. Há, porém, uma divergência que precisa ser explicada. A mãe descreve o mesmo padrão nas lições de casa, mas diz que Ana "passa uma hora inteira" montando histórias com bonecos. A divergência não contradiz o achado: a atenção se sustenta quando a atividade é escolhida por ela e muda a cada instante, e falha quando a tarefa é imposta, repetitiva e sem recompensa próxima, que é justamente o que o teste e a sala de aula exigem.
O que o achado não permite afirmar. Um desempenho baixo num teste de atenção, por si só, não define diagnóstico. Dificuldades de atenção sustentada também aparecem em quadros de ansiedade, na privação de sono e nas dificuldades específicas de leitura, em que a criança se desconcentra porque ler lhe custa mais esforço. Por isso, cada uma dessas hipóteses foi examinada com um dado próprio:
- a ansiedade foi investigada na entrevista lúdica e com os pais, e as preocupações de Ana se limitam às provas, surgindo depois das dificuldades, e não antes delas;
- o sono foi examinado na anamnese: ela dorme cerca de dez horas por noite, sem roncos ou despertares relatados;
- a leitura foi examinada numa tarefa de leitura em voz alta, em que Ana leu com fluência adequada ao ano, e o padrão de queda aparece também em tarefas que não envolvem leitura, como a de atenção.
O resultado, portanto, é lido junto com a história do desenvolvimento, a observação e os demais instrumentos, e só ganha peso diagnóstico quando converge com eles, como se discute na leitura integrada a seguir.
Continuação do mesmo caso fictício: parágrafos que fecham a Conclusão, depois das recomendações por âmbito.
O prognóstico é favorável quando as adaptações recomendadas em casa e na escola são mantidas de forma consistente. As dificuldades de atenção tendem a acompanhar Ana nas próximas etapas escolares, mas o impacto delas depende em grande parte de como o ambiente se organiza. A autoestima, que começou a ser afetada pelas experiências repetidas de não concluir as tarefas, é o ponto que mais pede atenção nos próximos meses.
Este laudo tem como finalidade subsidiar o planejamento pedagógico e o acompanhamento clínico de Ana, oferecendo à escola e à família uma compreensão do seu funcionamento atual e das condições que favorecem a sua aprendizagem. Ele não se destina a outros fins, como processos seletivos ou disputas judiciais.
Recomenda-se nova avaliação ao fim de 12 meses, para verificar a resposta às intervenções e a transição para o 4º ano, quando as tarefas ficam mais longas e exigem mais organização própria. A reavaliação deve ser antecipada se houver mudança importante no quadro, como queda acentuada no rendimento ou sinais de sofrimento emocional persistente.
Este laudo tem validade de 12 (doze) meses a partir da data de emissão, considerando a fase do desenvolvimento da avaliada, que muda rapidamente nessa idade, e as intervenções recomendadas.
Reafirma-se aqui que as informações deste documento extrajudicial são confidenciais e se restringem exclusivamente à finalidade de subsidiar o planejamento pedagógico e o acompanhamento clínico de Ana, não podendo ser utilizadas fora desse contexto ou para outro objetivo.
Brasília/DF, 20 de outubro de 2025.
Nome Sobrenome — Psicóloga — CRP 00/00000
Assinatura digital
Veja um exemplo completo em modelo de laudo psicológico.
Passo 6 — Validade e encerramento
No último parágrafo, indique o prazo de validade (art. 17), justificado pela natureza do que foi avaliado — veja validade do laudo. Encerre com local, data, nome, CRP, laudas numeradas e rubricadas e assinatura na última página.
Passo 7 — Devolutiva, entrega e guarda
- Faça ao menos uma entrevista devolutiva (art. 18). Roteiro em entrevista devolutiva.
- Colha o protocolo de entrega assinado (art. 16).
- Guarde o laudo e o material por no mínimo 5 anos (art. 15).
Checklist final antes de assinar
- Houve processo de avaliação psicológica
- Os 6 itens estão presentes e identificados separadamente
- Solicitante e finalidade estão claros
- Procedimento traz encontros, duração, pessoas ouvidas e instrumentos
- Cada afirmação da análise tem fonte
- A conclusão decorre da análise
- Referências em nota de rodapé
- Validade no último parágrafo
- Laudas numeradas (e rubricadas, se o laudo for em papel)
- Devolutiva agendada e protocolo pronto
Os 7 passos no DocsPSI: onde a IA trabalha e onde você decide
Os passos acima não mudam, e não devem mudar: são o que a Resolução CFP nº 06/2019 e a boa prática pedem. O que muda é quanto deles você precisa fazer à mão, no fim do dia, reconstruindo encontros de memória. É ali que o laudo atrasa semanas e que entram os erros de procedimento, de fonte e de validade.
| Passo | No DocsPSI |
|---|---|
| 1 e 2. Demanda, solicitante e finalidade | Contrato de avaliação psicológica da biblioteca de recursos, assinado pelo paciente por link seguro |
| 3. Planejar a avaliação | Roteiro de planejamento da avaliação na biblioteca; supervisão por IA, disponível 24 horas, para discutir o plano |
| 4. Registrar o processo | Cada entrevista e observação, gravada com consentimento, vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções |
| 5. Redigir os seis itens | A IA consulta o dossiê clínico completo do paciente e redige o laudo na estrutura da resolução, ou entrega só a estrutura para você escrever |
| 6. Validade e encerramento | O laudo sai com o parágrafo de validade e QR Code de autenticidade |
| 7. Devolutiva e entrega | Roteiros para planejar a comunicação de resultados e registrar a devolutiva |
A IA escreve na sua linguagem: nas configurações, você informa a sua abordagem teórica e a sua especialidade, e ela considera esse enquadre do prontuário ao laudo. E como tudo está no mesmo dossiê, com a Linha do Tempo Terapêutica reunindo os encontros da avaliação, o laudo nasce do registro, como a resolução exige.
A análise e a conclusão continuam sendo suas: o Manual Orientativo do CFP (2025) admite a IA para organizar, redigir e sistematizar, e reserva à psicóloga interpretações, conclusões e hipóteses. Você revisa integralmente, ajusta, assume a autoria e assina. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para fazer um laudo psicológico?
Depende da complexidade da demanda e dos instrumentos. O número de encontros e a duração do processo devem constar do item "Procedimento".
Posso fazer laudo de um paciente que atendo em psicoterapia?
É possível se houver um processo de avaliação psicológica com essa finalidade. Considere, porém, o art. 2º, "k", do Código de Ética, que veda ser avaliador quando vínculos atuais ou anteriores possam afetar a qualidade do trabalho — especialmente em contextos periciais.
O laudo precisa ser assinado em todas as páginas?
A Resolução 06/2019 pede laudas numeradas e rubricadas da primeira à penúltima e assinatura na última página. Com assinatura eletrônica válida, o Manual Orientativo do CFP (2025) dispensa as rubricas físicas.
Posso usar IA para escrever o laudo?
O guia de IA do CFP admite a IA como apoio na redação de laudos e relatórios, com revisão integral, autoria assumida e transparência de que houve ferramenta de apoio, e sem inserir dados identificáveis em ferramentas de uso geral. Laudos ou diagnósticos produzidos por IA sem supervisão da psicóloga não cabem.
Posso fazer o laudo com ajuda de inteligência artificial?
Pode, se a IA organizar e redigir e o conteúdo clínico for seu. O Manual Orientativo do CFP (2025) reserva à psicóloga interpretações, conclusões e hipóteses, e o guia de IA do CFP pede revisão integral e autoria assumida. No DocsPSI, a IA redige a partir do dossiê clínico e do que você registrou; você revisa, ajusta e assina.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019 comentada · Resolução CFP nº 31/2022 · Resolução CFP nº 01/2009 · Código de Ética Profissional do Psicólogo, art. 2º · Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável.
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