Sumário6 seções
"Preciso de um laudo de TDAH" é um dos pedidos mais frequentes em consultórios que atendem crianças e adultos. O documento tem peso — pode definir adaptações escolares, tratamento e até autopercepção — e por isso exige avaliação criteriosa. A estrutura geral está no guia do laudo psicológico.
O que a avaliação precisa investigar
Com base nos critérios do DSM-5-TR, a avaliação procura:
| Critério | O que investigar | Fontes |
|---|---|---|
| Sintomas | Desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade (6+ sintomas; 5+ a partir dos 17 anos) por pelo menos 6 meses | Entrevista, escalas |
| Início | Vários sintomas antes dos 12 anos | Anamnese, boletins, relatos |
| Contextos | Presença em dois ou mais ambientes | Pais, escola, trabalho |
| Prejuízo | Interferência clara no funcionamento | Entrevista, desempenho |
| Diferencial | Sintomas não mais bem explicados por outro quadro | Avaliação ampla |
Detalhes dos critérios em TDAH: critérios DSM-5-TR, CID-11 e avaliação.
Fontes de avaliação
- Anamnese detalhada do desenvolvimento — veja anamnese para TDAH.
- Entrevistas com a pessoa, responsáveis e, com autorização, escola.
- Escalas de sintomas respondidas por pais e professores, como o SNAP-IV. Confira no SATEPSI a classificação de cada instrumento: escalas são testes pela Resolução CFP nº 31/2022, e só as listadas como não privativas servem de fonte complementar, sem sustentar a conclusão sozinhas.
- Instrumentos de atenção, funções executivas e inteligência com parecer favorável no SATEPSI, quando pertinentes.
- Observação do comportamento durante a avaliação.
- Documentos de outros profissionais e da escola.
Diagnóstico diferencial
Muitos quadros produzem desatenção ou agitação: ansiedade, depressão, TEA, dificuldades específicas de aprendizagem, deficiência intelectual, privação de sono, uso de substâncias, condições médicas e contextos adversos. A análise do laudo deve mostrar que essas hipóteses foram consideradas. Veja TDAH x ansiedade x TEA.
Exemplo de laudo completo, adulto (fictício)
O laudo de TDAH com criança está no guia de laudo psicológico. Aqui, um adulto, caso em que reconstruir a infância com informantes e documentos é o ponto mais delicado.
1. Identificação
Pessoa avaliada: Marcos Vieira (nome fictício), 34 anos, designer gráfico autônomo, ensino superior completo, mora com a companheira há quatro anos, sem filhos.
Solicitante: o próprio avaliado, por sugestão do clínico geral que o acompanha.
Finalidade: investigar as dificuldades de atenção, organização e cumprimento de prazos na vida adulta e orientar o tratamento.
Número do documento: LP - 10/2025-4KD7M (numeração gerada pelo sistema)
Autora: Nome Sobrenome, psicóloga, CRP 00/00000.
2. Descrição da demanda
Marcos procurou a avaliação por sugestão do clínico geral, a quem relatou cansaço e a sensação de "estar sempre atrasado". Nos últimos oito meses, perdeu dois clientes importantes por atrasos na entrega de projetos, que representavam cerca de metade da sua renda, e acumulou multas por contas esquecidas. Disse que sempre se viu como "o desorganizado da família" e que quer entender se há algo além de "falta de força de vontade", expressão que ouviu dos pais durante toda a infância e que hoje repete para si mesmo.
Nas palavras dele, a dificuldade maior é começar tarefas longas e sem prazo imediato: "eu só funciono quando está pegando fogo". Relata esquecimento de compromissos, perda frequente de chaves e documentos, conversas em que "desliga no meio" e a sensação de ter "a cabeça cheia de abas abertas". Conta que a companheira reclama dos combinados esquecidos e que as brigas do casal, nos últimos meses, giram quase sempre em torno disso.
Na trajetória, levou sete anos para concluir a graduação, com três trancamentos, e passou por quatro empregos formais antes de se tornar autônomo, "porque ninguém aguentava os meus atrasos". Como autônomo, conseguiu se manter enquanto os projetos eram curtos. A mudança recente para projetos maiores, com várias etapas, coincidiu com a piora.
As informações vêm de três fontes: o próprio avaliado; a mãe, ouvida com a autorização dele sobre o desenvolvimento e a vida escolar; e os boletins do ensino fundamental, trazidos por ele. O documento servirá para orientar a psicoterapia e subsidiar a avaliação psiquiátrica.
3. Procedimento
A avaliação ocorreu entre 02/09 e 30/09/2025, em cinco encontros presenciais: quatro de 60 minutos com o avaliado e um de 45 minutos com a mãe, conforme as Resoluções CFP nº 06/2019 e nº 31/2022. Foram usados:
- entrevista clínica e anamnese, para levantar a história do desenvolvimento, a vida escolar e profissional, a saúde, o sono, o humor e o uso de substâncias;
- entrevista com a mãe, para reconstruir o comportamento na infância, fonte indispensável quando o quadro é investigado na vida adulta, em que a memória do próprio avaliado tende a ser incompleta;
- análise dos boletins escolares de 1996 a 1999, como registro independente, produzido na época e sem relação com a avaliação atual;
- escala de inteligência para adultos¹, para situar o funcionamento cognitivo global e verificar se as dificuldades decorrem de limitação intelectual;
- teste de atenção sustentada e alternada², para medir a manutenção do foco ao longo do tempo e a troca entre estímulos;
- tarefa de funções executivas³, para examinar o planejamento e a flexibilidade;
- inventário de autorrelato de sintomas em adultos⁴, como fonte complementar da percepção do próprio avaliado;
- observação do comportamento em todos os encontros.
Os instrumentos tinham parecer favorável no SATEPSI na data da aplicação.
4. Análise
Observação. Marcos chegou 15 minutos atrasado ao primeiro encontro, desculpando-se por ter "confundido o horário"; nos demais, foi pontual, com três alarmes no celular, que mostrou com humor. Mostrou-se cooperativo, bem-humorado e com vocabulário amplo. Nas tarefas longas, mexia na caneta, mudava de posição na cadeira e pediu duas vezes a repetição das instruções. Nas tarefas curtas e desafiadoras, manteve o foco sem esforço aparente. No segundo encontro, esqueceu os boletins que havia prometido trazer, e os trouxe no terceiro.
História. A mãe descreve um menino "no mundo da lua", que esquecia o material, perdia casacos e precisava de ajuda diária para começar as lições, embora "entendesse tudo rápido". Conta que ele era mais agitado que os irmãos e que "não parava sentado nem para comer". Os boletins repetem comentários como "capaz, mas disperso" e "não conclui as atividades". Na adolescência, o desempenho caiu quando as tarefas passaram a depender de organização própria. Na vida adulta, as dificuldades aparecem no trabalho, nas finanças e em casa, com um padrão estável ao longo dos anos, que piora quando as exigências de organização aumentam.
Funcionamento cognitivo. A escala de inteligência indicou compreensão verbal e raciocínio perceptual acima da média, e memória operacional e velocidade de processamento na média inferior. A discrepância ajuda a entender por que Marcos resolve bem problemas complexos de criação, mas se atrapalha nas tarefas administrativas simples e repetitivas, como orçamentos, cobranças e prazos intermediários. No teste de atenção, o desempenho ficou abaixo do esperado para a idade, com aumento das omissões na segunda metade da tarefa, coerente com o relato de que "começa bem e se perde no meio". A tarefa de funções executivas mostrou dificuldade de planejamento, isto é, de organizar os passos antes de agir, com flexibilidade preservada. O inventário indicou desatenção em intensidade elevada e hiperatividade moderada, restrita a inquietação interna.
Integração com os critérios. Os dados foram confrontados com a descrição do quadro na CID-11⁵:
- padrão persistente de desatenção, bem além de seis meses, relatado pelo avaliado e pela mãe e observado nas tarefas longas;
- início na infância, documentado nos boletins e no relato materno, e não apenas lembrado pelo adulto;
- presença em mais de um contexto: a escola, na época; hoje, o trabalho, as finanças e a vida doméstica;
- prejuízo funcional atual: perda de clientes, multas e conflitos no casal.
Em adultos, a hiperatividade tende a se expressar como inquietação interna, e a desatenção passa a dominar o quadro (Kooij et al., 2019), o que corresponde ao que Marcos descreve e à diferença entre o menino que "não parava sentado" e o adulto que "tem abas abertas" na cabeça.
Compreensão do caso. A dificuldade de base na atenção e no planejamento, presente desde a infância, foi durante anos compensada pela inteligência e, depois, pela escolha de um trabalho com projetos curtos, em que a urgência fazia o papel da organização. A mudança para projetos longos retirou essa compensação. Ao mesmo tempo, a explicação que Marcos construiu para as próprias dificuldades, "falta de força de vontade", alimenta um ciclo de vergonha e adiamento: diante de uma tarefa longa, antecipa o fracasso, adia, se culpa e reforça a ideia de que o problema é caráter. Esse ciclo, somado às perdas recentes, explica a piora do humor relatada nos últimos meses, sem que haja um quadro depressivo, como se discute a seguir.
Explicações alternativas.
- Ansiedade: há preocupação com os prazos, mas ela aparece depois das dificuldades, e não antes delas, e não explica os sinais presentes desde a infância.
- Episódio depressivo: há desânimo ligado às perdas, mas não humor deprimido persistente nem perda de interesse; Marcos mantém prazer no trabalho criativo e nos encontros com amigos.
- Transtorno bipolar: investigado porque oscilações de energia podem imitar a desatenção. Não há relato de períodos de euforia com redução da necessidade de sono; os picos de produtividade que ele descreve ocorrem só perto dos prazos e não se sustentam por dias.
- Uso de substâncias: consumo de álcool apenas social; usou maconha na faculdade e parou há oito anos, e as dificuldades são anteriores e posteriores a esse período.
- Alteração do sono: relata ronco e sono pouco reparador, que podem intensificar a desatenção atual. Foi recomendada avaliação médica do sono, embora o sono não explique os sinais documentados na infância.
Fatores de proteção. Raciocínio acima da média, profissão criativa com autonomia, companheira que apoia o tratamento e iniciativa própria de procurar ajuda. Marcos já criou estratégias que funcionam em parte, como os alarmes, o que indica recursos a ampliar.
Limites da avaliação. Não foi possível ouvir professores da época, e o relato da mãe se refere a lembranças de mais de 20 anos, limite compensado em parte pelos boletins. O peso do sono na desatenção atual depende da avaliação médica.
5. Conclusão
A avaliação psicológica indica que Marcos apresenta quadro compatível com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, apresentação predominantemente desatenta (CID-11: 6A05.0)⁵, com raciocínio acima da média e prejuízo atual no trabalho, nas finanças e na vida doméstica.
No âmbito clínico: psicoterapia cognitivo-comportamental voltada ao TDAH do adulto, com foco em organização, planejamento e procrastinação, abordagem com evidência nesse público (Safren et al., 2010), e com espaço para rever a explicação de "falta de força de vontade" que sustenta a vergonha.
No âmbito médico: avaliação psiquiátrica, para discutir as opções de tratamento, e avaliação médica do sono.
No trabalho: agenda única com alarmes, projetos divididos em entregas intermediárias combinadas com os clientes e horários fixos para as tarefas administrativas, em razão da dificuldade de planejamento observada.
Na vida doméstica: combinados escritos e visíveis, compartilhados com a companheira, e pagamento automático das contas. A companheira pode participar de uma sessão de orientação, se Marcos desejar, para que as dificuldades deixem de ser lidas como descaso.
O prognóstico é favorável, considerando a inteligência preservada, a motivação e a rede de apoio. Recomenda-se reavaliação em 12 meses, para acompanhar a resposta ao tratamento.
Este laudo tem validade de 12 (doze) meses a partir da data de emissão, considerando a natureza dinâmica do quadro e as intervenções recomendadas.
Reafirma-se aqui que as informações deste documento extrajudicial são confidenciais e se restringem exclusivamente à finalidade de orientar o tratamento do avaliado, não podendo ser utilizadas fora desse contexto ou para outro objetivo.
São Paulo/SP, 05 de outubro de 2025.
Nome Sobrenome — Psicóloga — CRP 00/00000
Assinatura digital
6. Referências
¹ ² ³ ⁴ Manuais técnicos dos instrumentos utilizados, com parecer favorável no SATEPSI.
⁵ ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Genebra: OMS, 2022.
KOOIJ, J. J. S. et al. Updated European Consensus Statement on diagnosis and treatment of adult ADHD. European Psychiatry, v. 56, p. 14-34, 2019.
SAFREN, S. A. et al. Cognitive behavioral therapy vs relaxation with educational support for medication-treated adults with ADHD and persistent symptoms: a randomized controlled trial. JAMA, v. 304, n. 8, p. 875-880, 2010.
Cuidados éticos
- Não emita laudo sem processo de avaliação (Código de Ética, art. 2º, "g").
- Evite linguagem determinista: descreva o funcionamento atual.
- Considere o destinatário: a escola precisa de orientações práticas, não de dados técnicos brutos.
- Faça a devolutiva com a família e, em linguagem adequada, com a criança ou o adolescente — veja entrevista devolutiva.
- Protocolo de entrega assinado (Resolução CFP nº 06/2019, art. 16, § 1º) e guarda do material, com os protocolos dos testes em pasta de acesso exclusivo.
Laudo de TDAH no DocsPSI: da entrevista com a mãe ao laudo assinado
No laudo de TDAH em adulto, o trabalho mais delicado é reconstruir a infância: a entrevista com a mãe, os boletins, a memória do próprio avaliado. Tudo isso precisa ser cruzado com os instrumentos e com quatro ou cinco hipóteses diferenciais. Quando essas peças ficam em anotações soltas de cinco encontros, é a análise que sofre: o laudo repete o relato e deixa de argumentar.
No DocsPSI, cada encontro da avaliação, gravado com consentimento ou importado depois em áudio, vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções, que separa o relatado do observado e registra as hipóteses em investigação. Boletins e documentos de outros profissionais ficam anexados ao dossiê clínico. Na hora do laudo, a IA do DocsPSI consulta esse dossiê inteiro e redige o documento nos seis itens da Resolução CFP nº 06/2019, considerando a abordagem teórica e a especialidade que você informou nas configurações. Se preferir escrever, você recebe só a estrutura, com os campos automáticos.
- Diferencial discutido antes de concluir: na supervisão por IA, disponível 24 horas, você examina com o caso inteiro à vista se ansiedade, sono ou TEA explicam melhor os dados. É apoio à reflexão, não substitui a supervisão humana.
- Avaliação à vista: a Linha do Tempo Terapêutica mostra o que já foi investigado em cada encontro e o que falta.
- Biblioteca de recursos: contrato de avaliação psicológica assinado eletronicamente por link, planejamento da comunicação de resultados e registro da devolutiva.
- Segurança: criptografia AES-256, isolamento por profissional, e o conteúdo clínico não treina modelos de IA.
- Entrega verificável: o laudo sai com QR Code de autenticidade, que o psiquiatra ou a escola conferem em segundos.
A conclusão diagnóstica continua sendo sua. O Manual Orientativo do CFP (2025) reserva à psicóloga as interpretações, as conclusões e as hipóteses; a IA redige e sistematiza a partir do que você registrou e discutiu, e o laudo só existe depois que você revisa, ajusta e assina. Para experimentar numa avaliação real, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.
Perguntas frequentes
Psicólogo pode dar laudo de TDAH?
A psicóloga pode emitir laudo psicológico a partir de avaliação psicológica, com diagnóstico ou hipótese diagnóstica fundamentados. A avaliação médica é complementar, sobretudo quando se discute medicação.
Quais testes usar para avaliar TDAH?
Não há teste único. A avaliação integra anamnese, entrevistas, escalas de sintomas respondidas por pais e professores e, quando pertinentes, instrumentos de atenção e funções executivas. Confira no SATEPSI a situação de cada instrumento na data da aplicação.
Laudo de TDAH precisa de CID?
Não é obrigatório. A conclusão pode indicar o diagnóstico com referência à classificação usada. Se o laudo for a processo judicial ou trabalhista, peça autorização por escrito para divulgar o código.
Qual a validade do laudo de TDAH?
É definida pela psicóloga no último parágrafo, considerando a idade e a natureza dinâmica do quadro.
A IA pode escrever o laudo de TDAH?
Pode redigir e sistematizar, desde que a avaliação tenha sido feita por você e que a análise e a conclusão sejam suas: o Manual Orientativo do CFP (2025) reserva à psicóloga interpretações, conclusões e hipóteses. No DocsPSI, a IA redige o laudo a partir do dossiê clínico da avaliação, e você revisa integralmente, ajusta e assina.
Referências: Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019 · Resolução CFP nº 31/2022 · Cartilha de Avaliação Psicológica (2022) · Código de Ética Profissional do Psicólogo, art. 2º · American Psychiatric Association. DSM-5-TR (2022).
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