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PTS (Projeto Terapêutico Singular) e o papel do psicólogo

PTS, Projeto Terapêutico Singular, e o papel do psicólogo: os 4 momentos, técnico de referência, registro no prontuário único e sigilo na equipe.

Construção participativa de Projeto Terapêutico Singular com equipe e pessoa atendida.
Sumário5 seções

Na saúde pública, o cuidado é coletivo. O PTS é a ferramenta que organiza quem faz o quê, com que objetivo e quando se revisa. Compare com o plano terapêutico individual da clínica.

Os 4 momentos

MomentoO que acontecePapel da psicologia
1. AvaliaçãoCompreensão ampla: saúde, vínculos, território, vulnerabilidades, potencialidadesAvaliação psicológica, escuta, leitura da dinâmica familiar
2. MetasObjetivos de curto, médio e longo prazo, negociados com o usuárioTraduzir demandas em metas possíveis
3. ResponsabilidadesQuem faz o quê; profissional de referênciaIntervenções individuais, grupos, articulação com a rede
4. ReavaliaçãoRevisão periódica do projetoRegistro da evolução, ajustes

PTS x plano terapêutico individual

PTSPlano terapêutico
AutoriaEquipe + usuário + redePsicóloga + paciente
ContextoSUS, equipes multiprofissionaisClínica
EscopoAmplo (saúde, social, território)Focado no processo psicoterápico

Sigilo no PTS

O PTS é compartilhado pela equipe. A psicóloga registra o necessário aos objetivos do trabalho (Código de Ética, art. 12) e mantém o restante no registro próprio — veja sigilo em equipe multiprofissional.

Registro no PTS

  • Prontuário único: o Manual Orientativo do CFP (2025) orienta que, em serviço multiprofissional, o registro seja feito em prontuário único, compartilhado, respeitando a estrutura mínima do prontuário psicológico e limitado ao que é relevante para o trabalho dos demais profissionais.
  • Reuniões de equipe: registre as decisões que afetam o cuidado do usuário, como metas, responsáveis e prazos de reavaliação.
  • Documentos: quando a equipe precisa comunicar o trabalho conjunto por escrito, o formato é o relatório multiprofissional (Resolução CFP nº 06/2019, art. 12). Veja relatório multiprofissional.
  • Guarda: em estabelecimentos de saúde, o Manual indica 20 anos para o prontuário, com base na Lei 13.787/2018.
  • Referências técnicas: o Manual recomenda acompanhar as publicações do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP) do CFP para cada área de atuação.

Exemplo de PTS completo (fictício)

O exemplo segue os quatro momentos do PTS descritos pelo Ministério da Saúde na clínica ampliada: avaliação (diagnóstico situacional), definição de metas, divisão de responsabilidades e reavaliação, com a participação do usuário.

ModeloProjeto Terapêutico Singular (exemplo fictício)

Usuário: Márcio (nome fictício), 34 anos, ensino fundamental completo, auxiliar de marcenaria, mora com a mãe, de 61 anos, aposentada. Acompanhado no CAPS há dois meses, depois de uma internação de três semanas na enfermaria psiquiátrica do hospital geral por uma primeira crise psicótica.
Construção do projeto: reunião de 22/09/2025, com Márcio, a mãe, a psiquiatra, a psicóloga (referência técnica), a terapeuta ocupacional e a assistente social. Márcio participou da definição das metas, e as palavras dele foram mantidas no projeto.

1. Diagnóstico situacional.

  • Estado atual: estável desde a alta, sem sintomas psicóticos observados pela equipe nas últimas seis semanas. Adesão irregular à medicação nos fins de semana, quando "esquece" ou bebe.
  • Vida cotidiana: afastou-se dos amigos e do trabalho na marcenaria do bairro, onde trabalhava havia oito anos. Passa as tardes em casa, vendo televisão. Tem vergonha de "todo mundo saber que ele foi internado".
  • Desejo expresso por ele: "voltar a fazer alguma coisa com as mãos".
  • Vulnerabilidades: isolamento, uso de álcool nos fins de semana (cerca de seis latas de cerveja no sábado), que interage com a medicação e aumenta o risco de nova crise, renda familiar baixa e o estigma que ele sente no bairro.
  • Potencialidades: habilidade manual, vínculo forte com a mãe, interesse por música (tocava violão na igreja), o dono da marcenaria, que perguntou por ele e disse que "a porta está aberta".

2. Sinais de alerta e plano de crise, combinados com Márcio e a mãe.

  • Sinais de alerta: dormir menos de cinco horas por várias noites, ficar desconfiado dos vizinhos, parar a medicação, isolar-se no quarto.
  • O que fazer: a mãe liga para o CAPS no mesmo dia; fora do horário, procura o pronto atendimento de referência. Márcio concordou que a mãe faça o contato se ele não conseguir.
  • Perguntado sobre pensamentos de morte, nega; o tema será retomado nos atendimentos individuais.

3. Metas pactuadas.

  • Curto prazo (60 dias): tomar a medicação todos os dias, com apoio de caixa organizadora semanal que ele mesmo monta às segundas; frequentar a oficina de marcenaria do CAPS duas vezes por semana.
  • Médio prazo (6 meses):
    • participar do grupo de convivência;
    • reduzir o álcool nos fins de semana, com meta combinada por ele de no máximo duas latas;
    • retomar contato com um amigo;
    • voltar a tocar violão.
  • Longo prazo: avaliar possibilidades de retorno ao trabalho, começando por meio período na marcenaria do bairro, com apoio da rede.

4. Divisão de responsabilidades.

  • Psiquiatria: acompanhamento medicamentoso mensal, com atenção aos efeitos colaterais que Márcio relata como sonolência pela manhã.
  • Psicologia: atendimento individual quinzenal, com foco na vergonha ligada à internação e no uso de álcool; grupo de convivência semanal; referência técnica do caso.
  • Terapia ocupacional: oficina de marcenaria e planejamento da rotina diária.
  • Serviço social: orientação sobre benefícios e articulação com programas de trabalho e com a marcenaria do bairro.
  • Família: apoio na organização da medicação, sem controle excessivo, e participação no grupo de familiares.

Sigilo. O PTS registra o que a equipe precisa para o cuidado; o conteúdo das sessões individuais fica no registro da psicologia.

5. Reavaliação. Em 60 dias, em reunião de equipe com a participação de Márcio e da mãe, ou antes se houver sinais de nova crise. Indicadores: dias com medicação por semana, frequência na oficina e consumo de álcool nos fins de semana, informados por ele e pela mãe.

Veja também relatório multiprofissional.

No serviço público, o PTS e as evoluções ficam no sistema adotado pelo serviço. O DocsPSI foi pensado para o consultório. Se você também atende em clínica própria, lá cada sessão gravada com consentimento vira, em menos de 5 minutos, um prontuário inteligente em 7 seções, e a biblioteca de recursos traz roteiros de encaminhamento e coordenação do cuidado, de interconsulta e de plano de cuidado psicológico, para quando o seu paciente também é acompanhado pela rede. A Linha do Tempo Terapêutica sugere o plano e as próximas condutas, e você revisa e decide.

Perguntas frequentes

O que é PTS na psicologia?

É o Projeto Terapêutico Singular: um conjunto de condutas terapêuticas articuladas, construídas por equipe interdisciplinar com o usuário e sua rede, comum no SUS.

Quais os momentos do PTS?

Avaliação, definição de metas, divisão de responsabilidades e reavaliação.

O psicólogo pode ser técnico de referência?

Sim. Em muitos serviços, psicólogas atuam como profissionais de referência dos usuários.

Quem participa da construção do PTS?

A equipe, o próprio usuário e, quando possível e com a concordância dele, a família e a rede. A participação do usuário na definição das metas é o que torna o projeto singular.

Referências: Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização: clínica ampliada e Projeto Terapêutico Singular · Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo, art. 12 · Resolução CFP nº 06/2019 · Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) · Brasil. Lei 13.787/2018.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

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