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Relatório multiprofissional: como o psicólogo participa

Relatório multiprofissional: como a psicóloga participa pelo art. 12 da Resolução CFP 06/2019, estrutura em 5 itens, autonomia das áreas e sigilo.

Equipe revisando relatório multiprofissional com contribuições identificadas por área.
Sumário5 seções

Equipes de TEA, hospitais, CAPS, escolas e serviços de assistência produzem documentos conjuntos. A psicóloga contribui com a sua parte, sem abrir mão das regras da profissão. Veja relatório psicológico e sigilo em equipe.

O que diz a Resolução 06/2019

Estrutura

ItemConteúdo
IdentificaçãoTítulo “Relatório Multiprofissional”, pessoa atendida, solicitante, finalidade, nome das autoras e autores com categoria profissional e registro no órgão de classe, quando houver
Descrição da demanda (com quem forneceu as informações)Motivo do trabalho da equipe
ProcedimentoO que cada área realizou
AnáliseContribuição de cada área e integração
ConclusãoRecomendações conjuntas

Exemplo de relatório multiprofissional completo (fictício)

Cada área descreve os próprios procedimentos e faz a própria análise, com subtítulo e registro profissional; a conclusão é conjunta porque houve consenso; todos assinam.

ModeloRelatório multiprofissional (exemplo fictício)

Título: Relatório Multiprofissional

1. Identificação

Pessoa atendida: Samuel Costa Araújo (nome fictício), 4 anos e 7 meses, educação infantil (Infantil IV), primeiro filho do casal, mora com a mãe e o pai; a avó materna cuida dele à tarde.
Solicitantes: mãe e pai, responsáveis legais, a pedido da coordenação pedagógica da escola.
Finalidade: informar à escola o percurso do acompanhamento e oferecer orientações técnicas para a adaptação às rotinas escolares.
Número do documento: RM - 06/2026-8TQ3L (numeração gerada pelo sistema)
Equipe multiprofissional: Nome Sobrenome, psicóloga, CRP 00/00000; Nome Sobrenome, fonoaudióloga, CRFa 0-00000; Nome Sobrenome, terapeuta ocupacional, CREFITO-0 00000-TO.

2. Descrição da demanda

Samuel chegou à equipe em fevereiro de 2026, encaminhado pela pediatra, que observou fala pouco desenvolvida para a idade e registrou a preocupação dos pais com crises de choro intensas nas mudanças de rotina. Segundo os pais, a gestação e o parto transcorreram sem intercorrências. Samuel sentou aos 6 meses e andou aos 15. Falou as primeiras palavras por volta dos 20 meses, mas, depois disso, o vocabulário "parou de crescer" por quase um ano, período que coincidiu com a pandemia e com pouco convívio com outras crianças. Entrou na escola aos 3 anos. Os pais atribuíram o atraso da fala, no início, ao isolamento, e só procuraram a pediatra quando a escola relatou que a diferença em relação aos colegas estava aumentando.

Na entrevista inicial, a mãe contou que Samuel "fala mais com gestos do que com palavras", tapa os ouvidos em festas e no refeitório da escola e aceita poucos alimentos, quase sempre de textura macia. O pai acrescentou que, em casa, ele brinca por longos períodos com os mesmos carrinhos, enfileirando-os, e se desorganiza quando alguém muda a ordem. Os dois reconheceram que, para evitar as crises, a família passou a evitar mudanças: a avó deixou de levá-lo à praça, e os aniversários de parentes eram visitados "só por dez minutos". A pergunta que trouxeram foi direta: "ele vai falar?".

A escola relatou que Samuel permanece à margem das brincadeiras em grupo, chora nas transições entre atividades, sobretudo na saída para o parque e na chegada do lanche, e às vezes se esconde embaixo da mesa quando a sala fica barulhenta. A coordenação pediu orientações práticas para a rotina em sala.

As informações deste relatório foram fornecidas pelos pais, pela avó, em um encontro, pela escola, em reunião com a professora e a coordenadora, e pela observação direta das profissionais da equipe. A investigação diagnóstica está sendo conduzida pela neuropediatra, e este relatório não tem finalidade diagnóstica.

3. Procedimentos

O acompanhamento ocorre desde 09/02/2026, com atendimentos semanais em cada área e uma reunião mensal de discussão de caso entre as profissionais. Cada área descreve os próprios procedimentos; os métodos privativos de cada profissão são registrados apenas por ela.

Psicologia (Nome Sobrenome, CRP 00/00000). Dezesseis sessões individuais de 45 minutos, com brincadeira livre e mediada, para observar o brincar simbólico, a atenção compartilhada e a regulação emocional; quatro encontros de orientação aos pais, um deles com a avó, para compreender e ajustar a forma como a família lida com as mudanças; e uma visita à escola, em 12/05/2026, com 90 minutos de observação em sala e no parque, para conhecer o ambiente em que as crises acontecem.

Fonoaudiologia (Nome Sobrenome, CRFa 0-00000). Quinze sessões de 40 minutos, com avaliação da linguagem compreensiva e expressiva e do uso social da comunicação, e estimulação da comunicação oral com apoio de recursos visuais.

Terapia ocupacional (Nome Sobrenome, CREFITO-0 00000-TO). Catorze sessões de 45 minutos, com avaliação do processamento sensorial, a partir de observação clínica e de questionário respondido pelos pais, e treino de atividades de vida diária, em especial a alimentação e as transições.

Discussões de caso. Em março, a equipe definiu um plano comum: antecipar as mudanças com apoio visual nas três áreas, para que Samuel encontrasse a mesma lógica em todos os atendimentos. Em abril, a partir da avaliação sensorial, decidiu testar o protetor auricular nos atendimentos antes de recomendá-lo à escola. Em maio, planejou a visita à escola e as orientações deste relatório.

4. Análise

Psicologia (Nome Sobrenome, CRP 00/00000). Nos primeiros encontros, Samuel explorava a sala sem se aproximar da psicóloga, repetia sequências com os mesmos brinquedos e reagia com choro intenso, de até vinte minutos, quando a atividade precisava terminar. Não se tratava de "birra", no sentido de uma tentativa de obter algo: o choro aparecia justamente quando o previsível se interrompia, e cedia quando a mudança era anunciada com antecedência e acompanhada de um objeto de transição, como um carrinho levado da brincadeira para a porta. Esse padrão indica que a antecipação funciona, para ele, como organizador, o que é coerente com o que Kopp (1989) descreve sobre a regulação emocional na primeira infância: nessa fase, a criança depende de apoios externos, oferecidos pelo adulto e pelo ambiente, para suportar a frustração.

Ao longo das sessões, o brincar ganhou algum espaço compartilhado. A partir do oitavo encontro, Samuel passou a entregar carrinhos à psicóloga, a esperar a vez numa brincadeira de rampa e a olhar para ela ao fim de uma sequência, como quem verifica se o outro acompanhou. Esses episódios de atenção compartilhada, ainda breves, são marcos importantes, porque é a partir deles que a comunicação intencional se desenvolve (Tomasello, 2003). Surgiram também as primeiras brincadeiras de faz de conta, como "dar comida" a um boneco, que Winnicott (1975) situa como a área em que a criança começa a elaborar a própria experiência.

Nas orientações aos pais, ficou claro um ciclo compreensível, mas que mantinha as dificuldades: para poupar Samuel das crises, a família reduzia as mudanças, e, com menos experiências de mudança bem-sucedidas, ele tolerava cada vez menos o imprevisto. Os pais e a avó foram orientados a trocar a evitação pela antecipação: anunciar, mostrar a imagem da próxima atividade e oferecer o objeto de transição. Desde abril, a família usa um quadro com a sequência do dia, e os pais relatam que as crises em casa caíram de quase diárias para uma ou duas por semana. A avó voltou a levá-lo à praça, com um aviso visual para a hora de ir embora.

Na escola, a observação mostrou um menino atento às outras crianças, que as acompanha com o olhar e sorri quando uma delas cai na brincadeira de roda, mas se retira quando o ruído aumenta. No parque, brincou dez minutos na caixa de areia ao lado de dois colegas, sem interagir diretamente com eles, e chorou quando a professora avisou, sem imagem, que era hora de voltar. Persistem choros intensos em ambientes muito barulhentos e nas transições não anunciadas.

Fonoaudiologia (Nome Sobrenome, CRFa 0-00000). Na avaliação inicial, Samuel usava palavras isoladas, com apoio de gestos, e compreendia ordens simples ligadas ao contexto imediato, como "pega o sapato" quando o sapato estava à vista. Usava a comunicação sobretudo para pedir, e pouco para mostrar ou comentar. Atualmente, produz frases de duas a três palavras em situações familiares ("mais água", "carro caiu") e compreende instruções de duas etapas quando acompanhadas de imagem. Começou a nomear objetos para mostrá-los ao adulto, um uso comunicativo novo. O uso de apoios visuais ampliou a compreensão e reduziu a frustração por não ser entendido, o que dialoga com o que a psicologia observa sobre as crises: parte delas acontecia quando Samuel não conseguia comunicar o que queria. A evolução é consistente, e a comunicação ainda está abaixo do esperado para a idade.

Terapia ocupacional (Nome Sobrenome, CREFITO-0 00000-TO). A avaliação indicou hiper-responsividade a estímulos auditivos e táteis, com impacto na alimentação, no vestir e na participação em ambientes coletivos, padrão que Dunn (1997) relaciona a um limiar sensorial baixo, isto é, a uma sensibilidade maior que a da maioria das crianças. Samuel recusava etiquetas nas roupas e alimentos com pedaços, e o som do liquidificador provocava fuga imediata. Com exposição gradual e previsível, aceitou três novos alimentos, passou a usar roupas sem etiqueta sem resistência e tolera o refeitório por mais tempo quando tem a opção de se afastar para um canto mais calmo. O protetor auricular, testado nos atendimentos em abril, foi aceito na segunda tentativa e reduziu as fugas em momentos de ruído.

Leitura integrada da equipe. Na discussão de caso, as três áreas chegaram a uma compreensão comum das crises. Elas aparecem quando três fatores se somam: sobrecarga sensorial, como ruído e aglomeração; imprevisibilidade, como a mudança sem aviso; e dificuldade de comunicar o que sente ou quer. Por isso, uma intervenção isolada não bastaria. O apoio visual serve à comunicação e à antecipação ao mesmo tempo; o canto calmo e o protetor reduzem a carga sensorial; e a mediação do adulto oferece a regulação que Samuel ainda não consegue fazer sozinho. Essa compreensão sustenta as recomendações abaixo.

Informações encaminhadas à investigação diagnóstica. A equipe não conclui diagnóstico. Registrou e encaminhou à neuropediatra as observações relevantes para a investigação: a atenção compartilhada ainda limitada, os padrões repetitivos no brincar, a resistência a mudanças e o perfil sensorial descrito, com a evolução de cada um desde fevereiro.

Fatores de proteção. Pais e avó implicados e dispostos a mudar a rotina; uma escola receptiva, que pediu orientação em vez de propor o afastamento; a boa resposta de Samuel aos apoios visuais; e os sinais emergentes de atenção compartilhada e de brincar simbólico, que indicam caminhos de desenvolvimento em curso.

5. Conclusão

A equipe, considerando os achados de cada área, conclui que Samuel evolui de forma consistente na comunicação, na regulação emocional e na tolerância sensorial, e que responde bem a ambientes previsíveis, com antecipação das mudanças e apoio visual. As crises observadas na escola são compreendidas como resposta à sobrecarga sensorial, à imprevisibilidade e à dificuldade de comunicar, e não como problema de comportamento a ser corrigido com punição ou insistência.

Recomendações à escola:

  • quadro visual com a sequência das atividades do dia, retomado na chegada e antes de cada transição, porque a antecipação é o principal organizador observado pelas três áreas;
  • aviso verbal e visual alguns minutos antes de cada mudança, com a possibilidade de levar um objeto de uma atividade para a outra;
  • um canto mais calmo na sala, disponível sem necessidade de pedir, e protetor auricular em momentos de maior ruído, como festas e o refeitório, em razão da sensibilidade auditiva descrita pela terapia ocupacional;
  • oferta gradual de novos alimentos no lanche, sem insistência nem recompensa condicionada, em articulação com a terapia ocupacional;
  • mediação da professora em brincadeiras com um ou dois colegas, e não com o grupo inteiro, favorecendo as trocas breves que Samuel já consegue sustentar;
  • uso das mesmas imagens adotadas nos atendimentos, que a equipe enviará à escola, para que a lógica seja a mesma em todos os ambientes.

Recomendações à família: manter o quadro de rotina em casa, anunciar mudanças com antecedência em vez de evitá-las, e continuar participando das orientações mensais.

Continuidade do cuidado: acompanhamento nas três áreas; reunião entre a equipe e a escola a cada bimestre, com a presença da família; e envio das informações escolares à neuropediatra, que conduz a investigação diagnóstica.

Um novo relatório será elaborado ao fim do semestre, para atualizar as orientações a partir das mudanças observadas. Este relatório tem validade de 6 (seis) meses a partir da data de emissão.

Reafirma-se aqui que as informações deste documento extrajudicial são confidenciais e se restringem exclusivamente à finalidade de orientar a escola na adaptação de Samuel às rotinas escolares, não podendo ser utilizadas fora desse contexto ou para outro objetivo.

Brasília/DF, 15 de junho de 2026.
Nome Sobrenome — Psicóloga — CRP 00/00000 — assinatura digital
Nome Sobrenome — Fonoaudióloga — CRFa 0-00000 — assinatura digital
Nome Sobrenome — Terapeuta ocupacional — CREFITO-0 00000-TO — assinatura digital

Referências

DUNN, W. The impact of sensory processing abilities on the daily lives of young children and their families: a conceptual model. Infants & Young Children, v. 9, n. 4, p. 23-35, 1997.
KOPP, C. B. Regulation of distress and negative emotions: a developmental view. Developmental Psychology, v. 25, n. 3, p. 343-354, 1989.
TOMASELLO, M. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Cuidados

  • Autonomia: cada área responde pelo seu conteúdo; ninguém escreve pela outra.
  • Sigilo: só o necessário para os objetivos da equipe (Código de Ética, art. 12).
  • Assinatura: cada profissional assina e identifica seu registro.
  • Laudo em equipe: se houver avaliação psicológica integrada, veja as regras de documento único em laudo psicológico.
  • Formato: itens ou texto corrido (art. 12, § 1º), com a validade no último parágrafo (art. 17) e entrega em devolutiva (art. 18).
  • Registro: em serviço multiprofissional, o registro é feito em prontuário único, só com as informações necessárias aos objetivos do trabalho (Resolução CFP nº 01/2009, art. 6º), como detalha o Manual Orientativo do CFP (2025).

A sua parte do relatório multiprofissional no DocsPSI

No relatório multiprofissional, cada profissional responde pelos próprios procedimentos e pela própria análise, e o documento só fica bom se cada parte for tão bem fundamentada quanto a leitura integrada da equipe. Para a psicóloga, o gargalo é o mesmo de sempre: dezesseis sessões lúdicas, orientações aos pais e uma visita à escola, que precisam virar alguns parágrafos precisos antes da reunião de fechamento.

O DocsPSI foi pensado para a psicóloga, e é essa parte que ele organiza. Cada sessão, gravada com o consentimento dos responsáveis ou importada depois em áudio, vira em menos de 5 minutos um prontuário inteligente em 7 seções. A Linha do Tempo Terapêutica mostra a evolução de ponta a ponta, que é o que a equipe discute. Na hora do relatório, a IA do DocsPSI consulta o seu dossiê clínico e redige os itens de procedimento e análise da psicologia, na estrutura da Resolução CFP nº 06/2019 e na abordagem que você informou nas configurações, preservando o que é privativo da profissão e o sigilo. A supervisão por IA, disponível 24 horas, ajuda a preparar a discussão de caso.

O que as outras áreas escrevem continua com elas, e a conclusão conjunta é da equipe. A sua análise é sua: você revisa, ajusta e assina, e o documento pode sair com QR Code de autenticidade. Para começar, há o primeiro mês promocional do Plano Starter, com acesso a todas as funcionalidades e sem fidelidade.

Perguntas frequentes

O que é relatório multiprofissional?

É o documento resultante da atuação em equipe, produzido com outros profissionais, preservando a autonomia e a ética de cada área (Resolução CFP 06/2019, art. 12).

A psicóloga precisa assinar o relatório multiprofissional?

Sim, identificando sua contribuição e sua inscrição no CRP.

Posso incluir hipóteses diagnósticas no relatório multiprofissional?

O relatório não tem como finalidade produzir diagnóstico. Inclua apenas o necessário aos objetivos do trabalho, respeitando o sigilo.

O relatório multiprofissional tem validade e devolutiva?

Sim. Como segue as características do relatório psicológico (art. 12, I), indica a validade no último parágrafo (art. 17) e é entregue em entrevista devolutiva (art. 18), com protocolo.

Referências: Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019, arts. 12, 17 e 18 · Resolução CFP nº 01/2009, art. 6º · Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) · Código de Ética Profissional do Psicólogo, arts. 6º e 12.

Equipe Editorial DocsPSI

Guias escritos a partir das resoluções do Conselho Federal de Psicologia, do Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos (CFP, 2025) e da rotina de milhares de consultórios que usam o DocsPSI.

Revisão técnica: Ana Vanessa de Medeiros Neves — Psicóloga Clínica e da Saúde, CRP 03/3592.

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